“Neutralidade de rede só beneficia as big techs”, diz CEO da Claro Brasil

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Em entrevista à DPL News, o CEO da Claro Brasil, José Félix, afirmou que as grandes plataformas digitais exercem forte lobby para evitar qualquer discussão sobre compartilhamento dos custos de infraestrutura e disse que o atual modelo desestimula investimentos em expansão e qualidade das redes.

Na conversa, o executivo também falou sobre monetização da inteligência artificial, mudanças na arquitetura das redes, neutralidade de rede e o novo ciclo de investimentos impulsionado pela IA.

DPL News: A crescente demanda por inteligência artificial traz desafios geopolíticos, de acesso a equipamentos e também de sustentabilidade. Como a Claro Brasil está adaptando sua estratégia de negócios e investimentos para esse cenário? E que oportunidades concretas a companhia vê para monetizar serviços ligados à IA?

José Félix: Na questão da receita, da monetização para aplicações de inteligência artificial, o que está se avizinhando é um uso adicional de tráfego dentro das redes e, obviamente, isso é bom para nós. Mas vamos ter que preparar essas redes para suportar esse tráfego e as necessidades que ele vai requerer, como menos delay e mais banda de retorno.

Hoje, por exemplo, a banda de descida é uma, a banda de retorno é mais limitada. No futuro, provavelmente vamos enxergar a banda de retorno crescendo em função da inferência nos sistemas de inteligência artificial.

Também enxergamos que as ferramentas de IA vão permitir conhecer melhor o cliente. E, conhecendo melhor o cliente, você consegue oferecer de modo mais assertivo aquilo que ele deseja. Isso pode melhorar a satisfação, reduzir churn e até permitir monetização maior em alguns casos.

Do lado da eficiência operacional, vemos inúmeras possibilidades, mas resolvemos focar em três pilares principais. O primeiro é call center, onde parece óbvio que há muito espaço para ganhos. O segundo é redes e operações de rede, com oportunidades de melhorar satisfação e reduzir churn.

Hoje muitos defeitos só chegam ao nosso conhecimento quando o cliente reclama. Com inteligência artificial, enxergamos a possibilidade de identificar falhas de forma proativa, antes mesmo que o cliente perceba.

O terceiro pilar é investimento. O dinheiro é limitado e precisamos ter inteligência na aplicação desses recursos.

DPL News: O debate sobre fair share voltou a aparecer no Telebrasil 2026, ainda que o setor tente evitar o termo. Esse é um debate inevitável? Como ele será conduzido de agora em diante?

José Félix: Ainda mais com inteligência artificial, estamos vendo que a performance das redes será cada vez mais essencial. Se queremos que as coisas funcionem bem, é fundamental investir nessas redes.

O que se vê hoje é um movimento de lobby muito forte das big techs. E a gente sabe a força que essas empresas têm. É injusto, não faz sentido, mas é a realidade não só do Brasil, mas do mundo.

Em algum momento alguém vai perceber que isso é um equívoco, porque poucos agentes, sem contribuir nada, acabam tornando o investimento menos atrativo para expansão, capilaridade e aperfeiçoamento das redes por causa do baixo retorno.

E existe outro ponto importante: hoje todo esse custo recai sobre o assinante final.

DPL News:  E hoje um dos maiores gargalos para expansão da conectividade é justamente o custo. 

José Félix: Um dos argumentos das plataformas é que qualquer mudança elevaria o custo para o usuário. Esse é justamente o absurdo dessa discussão. Um dos argumentos das big techs para não contribuir com nada é dizer que isso aumentaria o custo para o assinante. Não tem nada a ver. Diminuiria o custo para o usuário final.

DPL News: Em um mercado cada vez mais competitivo, com convergência entre telecomunicações, streaming, nuvem e conectividade avançada, qual será o diferencial competitivo da Claro diante de outras operadoras e plataformas digitais?

José Félix: A gente mantém o nosso core de conectividade como essencial. Não abrimos mão disso. Continuaremos investindo em uma rede de alta velocidade, de baixo delay, aumentando capilaridade e substituindo redes antigas por fibra.

Mas, paralelamente, enxergamos que precisamos investir em multisserviços, colocar mais serviços dentro da casa do cliente. E, acima de tudo, formar um ecossistema de nova geração.

Já estamos trabalhando nisso com NVIDIA, AWS, Microsoft, Oracle e também com empresas de conteúdo como Netflix, HBO, Apple TV e Globoplay. Esse ecossistema será o nosso ecossistema do futuro.

DPL News: E quais temas deveriam entrar na agenda digital do próximo governo?

José Félix: Repensar a neutralidade de rede é fundamental para liberar as empresas a criarem novos produtos e novas entregas diante desse novo ciclo propiciado pela inteligência artificial.

Hoje temos inúmeras restrições nesse sentido e acho que isso é uma discussão do passado. Neutralidade de rede deve existir para quem precisa, para o consumidor, não para proteger empresas gigantes globais.

Criaram-se barreiras fictícias para problemas que não existem. Estamos falando de empresas estrangeiras que dominam o mundo digital. Então por que tanta proteção para essas empresas? Eu não consigo pensar em outra explicação que não seja lobby.