“Estamos buscando uma forma de vender o dado como serviço”: Luiz Tonisi, presidente da Qualcomm
Há dois anos, o presidente da Qualcomm para a América Latina, Luiz Tonisi, falou à DPL News que a companhia seria “a empresa da Internet das Coisas, dos carros conectados, da indústria 4.0, da Realidade Aumentada e Realidade Virtual e dos smartphones”.
Desde então, a Qualcomm anunciou a compra da Autotalks, comunicação satelital para smartphones, uma parceria com a indústria agrícola e ativou WiFi 6 no Brasil, apenas para citar algumas das atividades mais recentes, mostrando que a companhia está seguindo para concretizar o plano.
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Em nova entrevista à DPL News, Tonisi falou sobre o segredo da Qualcomm para atuar com diferentes verticais, 5G, WiFi 6, redes privativas e o desafio do Open RAN.
Mirella Cordeiro: Você comentou recentemente que a indústria de Internet das Coisas é uma das grandes apostas na América Latina. Pode explicar isso, por favor? E como a Qualcomm apoia o desenvolvimento do IoT?
Luiz Tonisi: Eu sempre falo que uma das grandes vantagens do 5G é ser uma plataforma B2B2C, ser a plataforma das máquinas. E a indústria de IoT é a que mais cresce. O mercado de IoT tem um crescimento anual de 25 a 35%.
O 5G é o que vai conectar as bilhões de coisas e maximizar todos esses casos de uso de IoT. Então, a gente vai falar da indústria 4.0, setor de logística, transporte, robótica, de produção de uma forma geral, tudo vai ter um robô, vão ter sensores, vai ter câmera conectada, vai ter visão computacional. Tudo isso é IoT. Os casos de uso e as aplicações vão surgir.
A Qualcomm investiu fortemente em uma plataforma chamada Aware. Não sei se você ouviu falar…
Mirella Cordeiro: Não conheço.
Luiz Tonisi: Hoje tem várias tecnologias: 2G, 3G, 4G, 5G, Wi-Fi, Bluetooth, satélite. Cada vendor uma aplicação de IoT, uma plataforma, uma aplicação. A Qualcomm falou “vamos tentar simplificar essa bagunça”.
Os chips de Aware funcionam com 2G, 3G, 4G, 5G, Wi-Fi, no power Bluetooth e em breve funcionarão com satélite também. O que isso significa? Tanto faz a tecnologia de acesso. Obviamente, dependendo do caso de uso, você precisará de uma tecnologia ou de outra.
Mas o dado que tá no chipset – pode ser a aceleração, a localização, o consumo, se uma caixa foi lacrada, temperatura, pressão – vai para a Cloud. Então tem um chip que tem um device, eu pego esse dado com qualquer tecnologia de acesso e mando esse dado para a Cloud.
Então eu tenho um imenso data lake do que está acontecendo com vários chips e sensores. Se alguém quiser criar uma aplicação para empresa de transporte, é só colocar aqueles chips na empresa de transporte, pegar o dado na Nuvem e fazer o dashboard e a aplicação. Só que isso vai servir para todas as empresas.
A gente está buscando uma forma de, em vez de vender somente o hardware, a gente vai vender o dado. E o dado como serviço.
Imagina uma compra na Shein. Se tem um chip e ele funciona com qualquer tecnologia, eu sei exatamente onde a compra está, se é no mar, se é na terra, se é na balsa, se é na bicicleta, se é no carro, até chegar na porta de casa. Tem um tracking total. Só que isso vale para várias outras coisas.
A gente já vai começar as provas de conceito no Brasil.

Mirella Cordeiro: Interessante. Uma das minhas perguntas era justamente como a Qualcomm consegue trabalhar com tantas verticais diferentes.
Luiz Tonisi: Eu quero reforçar o entendimento… A gente não vai entender de agronegócio como uma pessoa do agronegócio. A gente não vai entender de logística como uma pessoa de logística. A gente não vai entender de segurança como uma pessoa de segurança. A gente fala “me diz aonde você quer colocar aquilo [a solução]”, depois toda a informação vai para a Nuvem e você vai desenhar a aplicação da forma que você quiser.
Mirella Cordeiro: A Qualcomm anunciou recentemente a compra da Autotalks. Gostaria de saber como isso se encaixa na estratégia da Qualcomm e se terá algum reflexo aqui na América Latina.
Luiz Tonisi: Essa aquisição vai acelerar, não só o mercado de quatro rodas, mas o mercado de duas rodas também. A gente fala sempre de carro, mas e as motos? Grande parte ainda dos acidentes, e talvez até os fatais estejam mais ligados à condição de duas rodas.
A Autotalks vai ajudar a acelerar a digitalização desse mercado de duas rodas e para o mercado legado também. A gente está feliz de poder incorporar no nosso portfólio, em breve, a Autotalks. E acredito que, aqui na América Latina, principalmente no mercado de duas rodas, três rodas, também vai ter um benefício muito grande com essa emergente aquisição.
Mirella Cordeiro: Gostaria de saber como está a discussão do WiFi 6 outdoor aqui no Brasil, por favor.
Luiz Tonisi: O WiFi 6E usa os 1200 MHz [da faixa de 6 GHz] que a Anatel disponibilizou, embora ainda falte a aprovação para o Outdoor. A gente está fazendo um caráter experimental na Rua Gabrielle D’ Annunzio e a gente está construindo um ecossistema, vamos trazer outros equipamentos com WiFi 6 tanto indoor quanto outdoor.
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Muitas vezes o pessoal fala “por que ainda não tem no Brasil? Por que a gente não usa outra coisa?” Não é bem assim, tem que ter um planejamento de longo prazo.
Se você imaginar que a gente já fez lançamento de Wi-Fi 7, e que grande parte do Wi-Fi no Brasil é 4 ou 5, a gente ainda tem um chão a ser percorrido. Muitas vezes eu falo “para que você tem um serviço de 500 MB, se no final o seu Wi-Fi é 5?” A migração para o Wi-Fi 6 vai ser mandatória à medida que as velocidades vão subindo.
O Wi-Fi 5 também é congestionado, se você abrir o seu telefone, vai achar umas 10 redes para se conectar. E uma rede causa interferência na outra.
Para a gente, é um caminho sem volta e a gente está trabalhando com o ecossistema para massificar equipamentos aqui na América Latina.
Mirella Cordeiro: Sobre redes privativas, qual é a sua avaliação? O mercado tem buscado esse modelo de rede?
Luiz Tonisi: Tem muito interesse, mas a quantidade ainda é pequena. E eu vou te dizer por quê. O que vale não é a cobertura, o que vale é o caso de uso. É igual você falar “eu vou ter Wi-Fi ou o 5G para quê?” É para algum uso. E no mercado da indústria mais ainda. A indústria tem que ter um motivo para ter o 5G, pode ser uma aplicação de robô ou uma aplicação de cirurgia, e tem que ter um modelo econômico por trás que seja sustentável para aquele investimento.
O que a gente tem que calibrar para que esse modelo ganhe escala são os casos de uso, a cobertura e um modelo econômico compatível com a nossa matriz brasileira, com a competitividade para usar para aquele caso de uso.
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Se você precisa de mobilidade, a latência baixa e a grande quantidade de coisas conectadas. O Wi-Fi não consegue conectar tantas coisas simultâneas quanto o 5G. A partir daí, tem que ter casos de uso que se sustentam economicamente comparado com uma rede Wi-Fi, por exemplo.
E eu tenho certeza que vai ganhar escala com mais casos de uso e a tecnologia vai ficando mais barata.
Mirella Cordeiro: Sei que a Qualcomm tem iniciativas de Open RAN no Brasil. Qual o principal desafio do Open RAN?
Luiz Tonisi: Todo mundo fala que o principal desafio do Open RAN é técnico, eu acho que ele vai ser superado muito rápido. O grande desafio do Open RAN é como a gente consegue integrar todas as tecnologias, porque você passa de uma ou duas empresas no mundo que colocam todos os elementos proprietários e põem a rede pra funcionar, para uma rede em que o acesso é de um, o software é do outro, o servidor é de terceiro, a energia é de quarto, e como você orquestra toda essa cadeia a um custo que seja menor ou igual a contratação de hoje? Porque ninguém vai fazer isso para ter um custo por giga da rede maior do que você tem nas redes existentes.
O desafio do Open RAN é buscar esses grandes integradores ou as grandes operadoras, quem vai dar o passo para ser esse grande integrador. Já tem algumas, a Rakuten, a AT&T e a Telefônica também tem algumas coisas nesse sentido.
Mas vai precisar desse nível de decisão de ir para outro modelo, entender que esse modelo vai requerer uma coordenação diferente. E tem seus benefícios de ter uma plataforma aberta. Tudo na vida são trade offs, você ganha algumas coisas, perde outras, mas no final você tem o resultado positivo.