Ericsson não quer que as operadoras virem apenas “redes neutras” no 5G

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A Ericsson acredita que o leilão do 5G no Brasil é o primeiro passo para a captura de valor da nova geração da rede móvel. Segundo Rodrigo Dienstmann, presidente da companhia para o Cone Sul da América Latina, o grande esforço da indústria será depois da licitação, com a criação de novas aplicações.

Em sua primeira entrevista coletiva no cargo, nesta terça-feira, 17, Dienstmann explicou que a missão da companhia é ajudar a manter o máximo de valor agregado com seus clientes – as operadoras.

“O IoT (Internet das Coisas) surgiu no Brasil há uns 20 anos com as empresas de rastreamento de cargas, ainda no 2G. Colocavam um celular no caminhão e um GPS mandava SMS a cada 10 minutos informando a localização”, contou o executivo. “O curioso, e é um bom alerta para essa fase do 5G, é que, naquela época, as operadoras estavam tão preocupadas em implantar as redes 2G que elas não olharam para essas verticais”.

O resultado foi que um novo ecossistema ocupou esse espaço. “As empresas de rastreamento de cargas utilizaram as operadoras como rede neutra. Hoje, os chips de seguradora ou de máquina de cartão de crédito tem um ARPU muito baixo para as operadoras.”

Para ele, se as empresas não criarem novas capacidades no 5G, elas vão se tornar “redes neutras […]. Por isso, esse movimento de capacitação e verticalização das operadoras e da indústria é super importante. A gente não quer virar rede neutra de 5G”, completou.

Recentemente, a companhia e a John Deere anunciaram uma parceria para desenvolver pesquisas de novas aplicações para o agronegócio usando o 5G e IoT. Além disso, a Ericsson possui projetos em logística e no ambiente fabril, mencionou Dienstmann.

Open RAN

Questionado sobre a competitividade que será traçada com o 5G, o presidente reiterou o apoio ao modelo Open RAN, já que a empresa faz parte do grupo que ajuda a estabelecer os padrões, e garantiu que a Ericsson confia em suas arquiteturas.

“A gente acredita que existe um ponto de equilíbrio entre um cliente fazer uma fragmentação da base de fornecedores, fazer a integração e gerenciar cada um deles, e comprar tudo pronto de só um ator”, informou. “Nós achamos saudável que isso aconteça, mas vai ser uma nova fronteira competitiva lá na frente – de 3, 4 ou 5 anos adiante.”

“O que a gente faz é confiar mais nas nossas arquiteturas e em como elas trabalham em conjunto, ao invés de ter medo de competição.”

Leilão do 5G no Brasil

Sobre o leilão do 5G, Dienstmann está confiante de que o edital será publicado em breve, com possibilidade de vender equipamentos ainda neste ano. “Nós, do ponto de vista fabril, estamos bem preparados. A fábrica da Ericsson no Brasil recentemente inaugurou a linha de produção de 5G, então estamos com basicamente tudo pronto, só precisamos colocar o selo, colocar o remetente e enviar as caixas”, brincou.

O presidente disse que, mesmo com as recomendações da área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o edital, “dá para fazer algo ainda este ano”.

“Em todos os atores com quem eu conversei, sejam das operadoras, colegas de indústria ou reguladores, incluindo o TCU, eu vejo o espírito de fazer [o leilão] acontecer, com as devidas correções”. O executivo afirmou que não leu o relatório técnico do TCU, mas que também não viu nenhum “comentário fatal” que adiasse a realização da licitação por muito tempo.