?#Entrevista | ConectarAGRO: Como essas empresas conectaram 50 mil fazendas no Brasil

A associação, que deve crescer em breve, pretende chegar a 13 milhões de hectares conectados ao 4G em 2022. O presidente da ConectarAGRO também contou que o grupo está disposto a conversar com iniciativas de outros países para exportar o modelo brasileiro.

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Focado no leilão do 5G, o Brasil ainda tem grandes possibilidades de negócios no 4G em um dos setores mais importantes da sua economia: o agronegócio. “Quando a gente olha o que se faz com a conectividade no agro hoje, o 4G atende 99% das aplicações”, afirmou Gregory Riordan, presidente da associação ConectarAGRO, à DPL News.

Isso não significa que o 5G será descartado no campo, a tecnologia deverá ser utilizada em conjunto até que surjam mais aplicações totalmente baseadas no 5G, mas “a gente ainda acredita no 4G para o futuro do agro”, pelo menos para os próximos cinco anos.

Embora seja uma tecnologia promissora, apenas 8,71% da área rural do país possui cobertura 4G, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Em contraste, 88,97% da zona urbana do país têm o sinal.

Foi pensando em viabilizar conectividade de uma forma acessível, simples e uniforme entre os fazendeiros do país que oito empresas – incluindo concorrentes – se uniram em 2019. Dois anos depois, a associação já conectou 6,1 milhões de hectares pelo Brasil e beneficiou mais de 50 mil propriedades e 600 mil pessoas indiretamente.

A próxima meta de cobertura do ConectarAGRO é ambiciosa: a associação quer chegar à marca de 13 milhões de hectares conectados com 4G em 2022. Mesmo dizendo que será “díficil”, o presidente ressalta que, em breve, serão anunciados quase 30 novos membros no grupo, o que deverá ajudar a alcançar esse e outros objetivos.

Atualmente, o ConectarAGRO reúne CNH Industrial, AGCO, Bayer, Jacto, Solinftec, Trimble, Nokia e TIM.

Confira a entrevista completa:

DPL News: Como nasceu o ConectarAGRO?

Gregory Riordan: As empresas que hoje são sócias do ConectarAGRO se encontravam em vários fóruns ligados ao agronegócio e, naquele momento [2018], começou a ficar aparente que a agricultura de precisão estava indo para uma direção de agricultura digital. Ou seja, além de toda a automação, piloto automático e barras de luzes, os produtores estavam buscando tecnologias que transmitissem informação da máquina, para utilizar isso no gerenciamento das atividades nas lavouras.

Só que isso estava acontecendo de uma forma desordenada. Cada um inventava sua solução de conectividade e propunha para o produtor. Muitas vezes, um fazendeiro tinha três ou quatro diferentes soluções que precisavam de conectividade e, ao mesmo tempo, três ou quatro diferentes soluções de conectividade. Começou a ficar complexo, caro, e o produtor tinha dificuldade de lidar com isso.

A gente pesquisou por vários meses e chegamos a algumas algumas conclusões: primeiro, o produtor queria uma rede aberta, no sentido de que ele pudesse conectar o todas as soluções em uma mesma rede; segundo, ele queria algo acessível, com um custo benefício aceitável; e, terceiro, ele pedia uma coisa simples.

Esses três direcionamentos nos levaram a entender que a tendência seria uma rede pública e 4G, para poder atender as diversas aplicações que os produtores estavam procurando.

Em 2018, o desligamento da TV analógica estava disponibilizando a faixa dos 700 MHz, que é mais baixa do que a tipicamente usada no Brasil e que faz o sinal ir mais longe. No ambiente agrícola, isso é importante para cobrir uma área maior. Entretanto, essa tecnologia está muito voltada para as cidades. A ConectarAGRO surgiu a partir da falta de conectividade do campo.

DPL News: Quais foram as metas alcançadas? 

Gregory Riordan: Até o momento, nós completamos 6,1 milhões de hectares. O legal disso é o efeito colateral social. Esses 6 milhões de hectares trouxeram conectividade de qualidade para mais de 600 mil pessoas e 25 mil quilômetros de rodovia, por onde circulam produção, pessoas e negócios.

Esses projetos viabilizados por grandes propriedades também trouxeram conectividade para mais de 50 mil propriedades, porque, depois que colocamos a torre no local, ela cobre todo o raio em volta. E, aqui no Brasil, uma grande quantidade de produtores tem propriedades abaixo de 100 hectares. Então, dessas 50 mil propriedades, 90% são pequenos produtores que foram beneficiados pela conectividade. 

A gente tem uma meta que é chegar a 13 milhões de hectares cobertos em 2022

DPL News: E quais são os próximos objetivos?

Gregory Riordan: A gente tem uma meta que é chegar a 13 milhões de hectares cobertos em 2022. É bastante difícil, talvez atrase um pouquinho.

Também temos o programa de educação do ConectarAGRO, em que estamos fazendo uma parceria com uma fazenda no Centro-Oeste para um piloto. O objetivo é entender como usar a conectividade, através de ferramentas de ensino a distância, para profissionalizar o pessoal que será impactado pela conectividade, tanto quem já está na roça operando as máquinas, para que eles tirem o máximo do proveito, quanto os mais jovens. Nós vamos explicar quais são os benefícios, as vantagens e as ferramentas que eles podem usar no campo, para eles estarem prontos para o mercado quando se formarem na escola.

Outra frente é de novos modelos de negócios, porque nem todo o Brasil é de grandes fazendas. Pensamos em como criar um modelo de negócios que também permita levar essa cobertura para regiões como Paraná e Rio Grande do Sul que, ao invés de ter um grande produtor, tem vários pequenos produtores que poderiam investir em uma torre de forma coletiva.

Hoje, o investimento de cobertura de conectividade gira em torno de meia saca de soja por hectare, aproximadamente R$ 70,00 ou R$75,00

DPL News: Quais os maiores desafios de conectar áreas produtivas no Brasil?

Gregory Riordan: O primeiro aspecto é conscientizar as pessoas que estão no campo dos benefícios da conectividade, para que fique claro de que vale muito a pena.

Hoje, o investimento de cobertura de conectividade gira em torno de meia saca de soja por hectare, aproximadamente R$ 70,00 ou R$75,00. O benefício, já no primeiro ano, é praticamente três ou quatro vezes esse valor, dá dois sacos de soja por hectare, devido à redução de consumo de combustível, o melhor plantio, a precisão maior dos sistemas de direcionamento. A conectividade ajuda em todo o orquestramento das operações de manutenção, logística e operação para garantir que a máquina esteja sempre trabalhando.

Outro desafio é saber como eu tiro proveito da conectividade, como garanto que as soluções realmente vão trazer benefícios para o produtor nas suas diferentes atuações. Porque tem produtor que planta soja, tem produtor que planta cana, tem produtor que produz gado, então a agricultura é muito diversa e tem várias oportunidades para diferentes soluções conectadas. Enriquecer esse ecossistema para usufruir bem da conectividade é um dos principais desafios.

DPL News: Uma vez que a conectividade móvel chega a uma determinada área rural, quais são as primeiras ferramentas que um produtor deve adotar para seu negócio ficar mais produtivo?

Gregory Riordan: A necessidade mais básica é o sinal do celular. Na minha época inicial de agricultura, quando eu ia para as fazendas, houve várias situações que eu ia procurar uma máquina para fazer manutenção e levava meio dia pra encontrar o equipamento. Essa comunicação e logística talvez seja a coisa mais básica que a telefonia traz para nós. Se alguém me manda a localização no WhatsApp, eu vou direto até a máquina sem perder tempo.

Depois, tem uma série de funcionalidades que já saem embarcadas nas máquinas. A maioria já sai com piloto automático, com telemetria. Quando você chega no ambiente não conectado, você subutiliza essas tecnologias, já no ambiente conectado você vai ter todas as informações indo da máquina para o escritório, e vai poder usar todas as ferramentas de gestão. Eu diria que o segundo passo seria o monitoramento das máquinas.

Tem uma série de outras ferramentas mais avançadas, como drone para fazer mapeamento aéreo e em tempo real, pulverização utilizando drones, que a conectividade viabiliza. Mas acho importante entender que algumas coisas são muito básicas e vão dar um incremento gigantesco, depois tem uma série de outras coisas que são os próximos passos.

DPL News: Quais são as perspectivas com o leilão do 5G para o agro?

Gregory Riordan: Estamos estudando o 5G, algumas aplicações específicas de menor latência podem entrar no agro, mas, na nossa visão, o 4G é a tecnologia que vai ajudar a trazer a conectividade para o campo e resolver a problemática imediatamente. 

Acho que o leilão do 5G vai nos ajudar inicialmente pelas contrapartidas do 4G que vão favorecer a expansão no agronegócio, nos meios remotos agrícolas e também nos meios remotos das rodovias.

DPL News: Por que hoje o 4G é o mais adequado para o agronegócio?

Gregory Riordan: Primeiro, porque está disponível. A gente precisa de uma tecnologia para cobrir agro hoje e avançar rapidamente. O leilão do 5G vai mudar isso, porque o sinal vai começar a estar disponível.

O segundo aspecto é que, hoje, na frequência dos 700 MHz, principalmente, eu consigo colocar torres mais distantes uma da outra para cobrir uma área grande. O 5G utiliza frequências mais altas, o que é ideal para uma Avenida Paulista, por exemplo, mas dentro do ambiente agrícola, uma torre só cobre uma parte da fazenda.

Terceiro, e talvez mais importante, é que todas as aplicações que a gente vê hoje e daqui a cinco anos, o 4G atende muito bem. É uma questão de casar a tecnologia com a necessidade. Mas não temos nada contra o 5G, acho que vai ser uma evolução natural.

Nós estamos à disposição, como instituição, de discutir com empresas e iniciativas de cada país para ajudar e dividir o nosso aprendizado

DPL News: Existem planos de expansão do ConectarAGRO para outros países?

Gregory Riordan: Não é nossa prioridade hoje, mas acho que o modelo do ConectarAGRO pode ser expandido. Nós estamos à disposição, como instituição, de discutir com empresas e iniciativas de cada país para ajudar e dividir o nosso aprendizado, para que possam acelerar esse tipo de iniciativa. 

Hoje, nossa prioridade é o Brasil, mas estamos muito dispostos a dialogar, ajudar e apoiar qualquer iniciativa que tentar fazer a mesma coisa fora daqui.