Processadores, Estado e a fronteira digital

Jorge F. Negrete P.

“Um Estado empreendedor investe em áreas nas quais a iniciativa privada não investiria, mesmo que tivesse recursos”. Mariana Mazzucato.

Os semicondutores, processadores ou chips de computação são a fronteira de tudo, a semente primordial da sociedade digital. Sem eles, não há computação, processamento de dados, inteligência artificial, serviços digitais, transformação digital. Eles são o princípio e a fronteira tecnológica da sociedade digital.

Eles são agora a fronteira geopolítica entre Ásia e Ocidente. Os Estados Unidos limitaram essa tecnologia para a China, e o resto do planeta busca oportunidades para desenvolver essa tecnologia e atrair investimentos estratégicos para suas regiões. Taiwan já não é mais um porto seguro para investimentos e produção de processadores.

No centro dessa fronteira estão as ações dos governos. Estamos falando de dinheiro público, Estado ou governça econômica, como quiser chamar.

Estados Unidos. A Lei de Ciência e CHIPS (Creating Helpful Incentives to Produce Semiconductors), promovida pelo presidente Biden, estabelece um projeto estratégico de segurança nacional e disponibiliza 280 bilhões de dólares para fortalecer a competitividade no setor tecnológico, enfrentar a crescente ameaça tecnológica da China e proteger o país de possíveis interrupções na cadeia de valor. Dessa quantia, direciona US$52 bilhões para pesquisa e desenvolvimento de processadores de computação.

Europa. O Conselho Europeu aprovou o regulamento para fortalecer o ecossistema regional de semicondutores, conhecido como Chips Act, por meio do qual busca gerar um investimento de até 43 bilhões de euros para impulsionar a fabricação de 20% dos chips do mundo em território europeu.

Espanha. Prevê mobilizar investimento público em processadores até 12.250 milhões de euros.

Alemanha. Prepara um fundo de 20 bilhões de euros para impulsionar a fabricação de chips no país, por meio da concessão de subsídios a empresas até 2027.

América Latina. Essa onda tem uma expressão que ainda não foi totalmente aproveitada. O secretário de Estado, Anthony Blinken, convidou o governo mexicano para fazer parte de sua estratégia de chips na América do Norte. Até hoje, não houve resposta.

Costa Rica. Anthony Blinken anunciou uma aliança estratégica com o governo da Costa Rica para explorar oportunidades e impulsionar o ecossistema global de semicondutores.

Panamá. Os Estados Unidos e o Panamá colaborarão para promover o setor de semicondutores e avaliar o ecossistema de semicondutores existente no país centro-americano, a fim de identificar os pontos fortes do país e as áreas de melhoria no setor.

A gigante fabricante de chips Taiwan Semiconductor (TSMC) anunciou um investimento de US$ 40 bilhões no Arizona, e a Samsung anunciou que construirá uma fábrica de chips avançados de US$ 17 bilhões em Taylor, Texas.

Os EUA enfrentam um cenário complexo, por um lado, devem formar recursos humanos para lidar com essas tecnologias (não os possuem), por outro, restaurar as relações diplomáticas prejudicadas durante a presidência de Donald Trump e conter o progresso tecnológico chinês.

Para isso, criou com a Europa o Conselho de Comércio e Tecnologia, formado pela vice-presidente da Comissão Européia, Margrethe Vestager; o Secretário de Estado, Antony Blinken; a Secretária de Comércio, Gina Raimondo; e a representante comercial, Katherine Tai.

Por outro lado, em julho deste ano, a Associação da Indústria de Semicondutores dos EUA solicitou ao governo “permitir que a indústria mantenha o acesso contínuo ao mercado da China” e fez um “apelo a ambos os governos para reduzirem as tensões e buscarem soluções por meio do diálogo, não por um aumento das tensões. Também instou a “abster-se de impor mais restrições”

Onde está o mundo dos semicondutores?

“No purgatório ou no inferno? Na fronteira”. Stephen King.

Presidente de Política e Direito Digital

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