O Brasil já possui pelo menos uma rede Open RAN 4G e outra 5G em funcionamento. No Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em Santa Rita do Sapucaí (MG), os responsáveis pelo TIP Community Lab estão testando as redes abertas e desagregadas com soluções de diversos parceiros do programa, como Ceragon, Dell e Parallel.
“Na América Latina, temos quatro Community Labs do TIP, mas eu destaco o laboratório do Inatel por ser o único que é focado na parte de implantação, que cria uma rede real e põe o sinal no ar”, afirmou o gerente de desenvolvimento de hardware e software do Inatel, Henry Douglas Rodrigues, em evento de apresentação do projeto nesta sexta-feira, 8.
Ele explicou que o programa Open Field do Inatel não tem só uma “salinha fechada”, mas tem uma rede com três sites que provê cobertura para todo o campus do instituto. Duas das vantagens do projeto é poder validar a tecnologia dos fornecedores antes que ela esteja disponível no mercado e, com isso, as operadoras têm a segurança de que a solução funciona. Atualmente, as operadoras TIM, Claro, Vivo e Brisanet são parceiras do projeto.
“Nós vamos distribuir SIM cards para a comunidade do Inatel – alunos, professores e colaboradores – para fazer o uso da rede”, disse o especialista.
O laboratório do Inatel recebeu investimento na ordem de R$ 2,5 milhões dos parceiros do Open Field, entre recursos e equipamentos.
Leia também: Cisco, RNP e Inatel estimulam Open RAN no Brasil com o projeto 5G.BR
Como funciona
Rodrigues comentou que o processo de teste é feito em várias etapas, uma para cada combinação de fornecedores de uma tecnologia. São realizadas provas de validação e testes de caso de uso com as operadoras.
“Uma vez testadas as soluções e validadas, o TIP tem um programa de emissão de distintivos bronze, prata e ouro. Ou seja, à medida que os equipamentos passam nos requisitos, nós somos capazes de emitir um distintivo que fica disponível no site do TIP Exchange”. O cliente final – a operadora – pode conferir as soluções no portal e verificar qual distintivo elas receberam.
À DPL News, Rodrigues falou sobre a segurança da rede no modelo Open RAN. “O fato de estar aberto não significa estar menos seguro. A questão de ser aberta significa, por exemplo, que você tem interfaces padrões abertas para garantir a interoperabilidade”, disse.
No caso do software, ele acrescentou que ter uma solução de código aberto faz o sistema ainda mais seguro, “porque você sabe o que está rodando. Uma operadora pode implantar uma rede utilizando essa solução aberta e fazer a verificação do código fonte para ver que não tem nenhum backdoor.”
O TIP (Telecom Infra Project) é um projeto que reúne empresas para estudar modelos de rede aberta com o objetivo de fomentar a inovação. Além do Open RAN, que se dedica ao acesso da rede móvel, o projeto também investiga Open Core Network, que se refere ao núcleo da rede, e Open Optical & Packet Transport, relacionado ao transporte. Segundo Rodrigues, o Open RAN é a parte que recebe maior destaque porque 70% do custo da implementação de uma rede móvel é da parte de acesso.
Ele ainda afirmou que o mercado de Open RAN será de US$ 30 bilhões no ano de 2030, quando metade dos sites do mundo serão deste modelo.
Open RAN no Brasil
O ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Paulo Alvim, esteve no evento e anunciou que o governo está investindo R$ 30 milhões em Open RAN. Ele acredita que esta operação deva chegar a R$ 100 milhões em cinco anos.
O interesse do Brasil nas tecnologias abertas é soberania tecnológica, de acordo com o ministro. “[O investimento] dá oportunidade para que a gente construa, em alguns segmentos estratégicos, a oportunidade de termos empresas brasileiras construindo soluções, postos de trabalho de qualidade e produtos e serviços brasileiros de alto valor agregado”.
O diretor do Inatel, Carlos Nazareth, falou que o próximo desafio do instituto é participar da “criação de soluções abertas que podem trazer mais competitividade, de baixo custo e que podem integrar todo o cardápio de possibilidades do mundo de telecomunicações, para que o setor se torne cada vez mais presente para aqueles que necessitam de conectividade.”
Para ele, essa é uma oportunidade para o Inatel e as empresas da região integrarem a indústria nacional. “É muito difícil participar do fornecimento de telecomunicações tendo todos os produtos da cadeia, mas, com o Open RAN a gente tem a possibilidade de preparar as indústrias locais e os parceiros para fornecer partes desse sistema”, concluiu.