?#Entrevista | IoT recupera, no mínimo, 15% dos ganhos das empresas no Brasil, garante Paulo Spaccaquerche
“Internet das Coisas (IoT, em inglês) é o conjunto de tecnologias que coleta dados numa ponta e os transforma em algo que seja identificado pelo negócio, como uma coisa que melhore o negócio.” É assim que Paulo José Spaccaquerche, presidente da Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC), define IoT.
Em entrevista à DPL News, ele comentou que, apesar de IoT não depender do 5G para existir, a quinta geração da rede móvel, massificada, “vai alavancar projetos que estão engavetados porque precisam de uma conexão mais rápida e com uma latência quase zero”.
IoT pode recuperar de 15% a 20% dos ganhos de uma empresa, no mínimo.
Spaccaquerche acredita que isso levará a uma transformação ainda mais acelerada, porque “IoT é o coração da digitalização para essa transformação digital que nós estamos passando”. Para ele, tudo o que é físico é possível se tornar digital e, consequentemente, gerador de dados. Por sua vez, os dados são a base para a transformação dos negócios.
“Um afiliado nosso foi chamado para controlar o problema de uma fazenda que estava com muito gasto nos equipamentos. Ele colocou sensores nas máquinas, montou uma rede e começou a coletar informações”, contou. “Ele percebeu que um motorista de trator não estava fazendo os caminhos corretos, nem com a velocidade correta, e começou a melhorar isso. Só no consumo de pneus, ele recuperou mais de 30%”.
O presidente da associação garante que IoT pode recuperar de 15% a 20% dos ganhos de uma empresa, no mínimo.
Estima-se que o impacto econômico de IoT para as economias mundiais seja entre U$ 3,9 trilhões e U$ 11,1 trilhões por ano até 2025. No Brasil, a estimativa é de cerca de U$ 200 bilhões anuais até 2025, representando cerca de 10% do produto interno bruto do país.
Atuação da ABINC
Se tudo pode ser transformado em digital, é necessário direcionar o foco. Essa é a função da ABINC nas atividades próximas ao mundo acadêmico, ao mercado e ao governo.
Spaccaquerche explica que a associação possui quatro grandes pilares: Mercado, “olhamos as empresas e ouvimos as demandas, para discutir possíveis soluções com os associados por meio de câmaras”; Pesquisas com empresas e universidades; Governo, com forte comunicação com os Ministérios das Comunicações (MCom) e da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), por exemplo; e Educação, para formar mão de obra.
Um dos frutos das atividades da associação foi o Plano Nacional de IoT, criado pelo MCTI, em que a ABINC esteve presente desde o início das discussões. O executivo disse que os setores de atenção do Plano (Agronegócio, Cidades Inteligentes, Indústria, Saúde e, mais recentemente, Turismo), são os segmentos que norteiam os grandes projetos de IoT no Brasil. “Ele está alavancando e dando sustentação aos projetos”, afirmou.
O presidente da ABINC atribui a isenção de impostos nos dispositivos IoT ao trabalho desenvolvido com o documento. “O Plano mostrou que a tributação era um dos grandes gargalos nos projetos de IoT, porque a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) taxa todos os objetos que se comunicam.”
No final do ano passado, foi sancionada a Lei nº 14.108/2020, que reduz a zero as taxas de fiscalização de instalação e as taxas de fiscalização de funcionamento dos sistemas de comunicação máquina a máquina até o final de 2025.
As ações para capacitar profissionais para a área de tecnologia são essenciais e, segundo Spaccaquerche, não serão suficientes para suprir a demanda até 2030. “Um estudo da Mackenzie mostra que nós temos, em 2020, um gap de mais de 2 milhões. Para 2030, esse gap vai continuar”, comentou. Ou seja, serão formadas menos pessoas do que o necessário para atender o mercado de trabalho, “porque a nossa formação está muito distante da necessidade que estamos passando em termos de tecnologia”.
A gente tem um problema de regulamentação de padrão, para um equipamento se comunicar com o outro
Desafios
Outro desafio do setor de IoT é a regulamentação, mas não só no Brasil, disse o executivo, isso acontece no mundo inteiro. “A gente tem um problema de regulamentação de padrão, para um equipamento se comunicar com o outro”, explicou.
“Isso impede alguns projetos de ir para frente, principalmente na manufatura. Hoje tem empresas que fazem a conversão de diferentes produtos. Um produto entra por uma linha e sai por outra falando um linguajar diferente, como se fosse uma maquininha de tradução.”
Antigamente demorava de dois a três anos para o Brasil começar a fazer a mesma coisa que acontecia nos Estados Unidos e na Europa, hoje está demorando de três a seis meses
Ele citou a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018) para exemplificar. Até poucos anos atrás, a necessidade de controlar os dados e proteger a privacidade não era amplamente debatida. Em um curto período de tempo, a discussão cresceu e foram criadas a LGPD e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Spaccaquerche acredita que o mesmo acontecerá com o setor de IoT.
Pelo menos, o presidente da associação acredita que o Brasil está tentando suprir as necessidades e, desta vez, acompanhando mais de perto os países “mais adiantados”. “Antigamente demorava de dois a três anos para o Brasil começar a fazer a mesma coisa que acontecia nos Estados Unidos e na Europa, hoje está demorando de três a seis meses”, comentou. “Eu diria que o país está para lá de excelente.”