Carta Ibero-americana de Direitos Digitais: origem, objetivos e o desafio de sua implementação

“Da mesma forma que não podemos lutar sozinhos contra as mudanças climáticas, não podemos enfrentar os desafios do desenvolvimento tecnológico se o fizermos em algumas regiões e não em todas elas”, disse Carme Artigas, secretária de Estado de Digitalização e Inteligência Artificial da Espanha, durante um congresso no qual foram apresentadas a origem, os objetivos e os desafios da recém-publicada Carta Ibero-Americana de Princípios e Direitos em Ambientes Digitais.

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A Secretária comentou o espírito do documento e garantiu que “a América Latina terá um papel central na agenda europeia para o segundo semestre de 2023”, período em que a Espanha ocupará a presidência do Conselho Europeu. “É agora que a Ibero-América deve redefinir suas estratégias olhando para o futuro, a digitalização deve ser a protagonista”, acrescentou e insistiu na ideia de que a evolução deve estar “com as pessoas no centro”.

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A carta foi trabalhada por cinco meses. No marco de sua apresentação oficial, o secretário-geral ibero-americano, Andrés Allamand, falou de uma tripla dificuldade para fazê-lo: primeiro, chegar a um consenso entre 22 países e, segundo, fazê-lo entre países com níveis muito diferentes de desenvolvimento e de digitalização. Ele ainda mencionou que os envolvidos transferem a responsabilidade regulatória para organizações de diferentes naturezas.

“Foram convocados 80 funcionários de 22 países e houve um intercâmbio de 11 departamentos governamentais diferentes. Foram 140 dias de trabalho com oito reuniões – uma presencial, as demais virtuais – e mais de mil contribuições foram processadas”, acrescentou Juan Alejandro Kawabata, diretor de Assuntos Jurídicos e Institucionais da Segib. Acrescentou que a diversidade de atores “é um grande trunfo, uma rede sólida para a futura concretização da carta”.

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Após analisar cada um dos pontos do documento, os participantes valorizaram aspectos como a inclusão de um capítulo específico relacionado aos direitos das crianças e dos adolescentes e o respeito a valores como a privacidade, além de focar nas pessoas “abandonando concepções anteriores, onde a prioridade foi dada a Estados ou mercados”, contribuiu Allamand. Durante o encontro, eles falaram da América Latina como um lugar caracterizado por “altíssima desigualdade” e onde políticas públicas são urgentes para fechar todas as lacunas.

“Temos orgulho de fazer parte da construção deste instrumento e apostamos que esta carta possa orientar os processos de atualização normativa sobre a matéria para que a transformação digital seja um instrumento de ampliação do acesso à educação, saúde e cultura”, comentou José David Montilla, vice-ministro de Agenda Digital da República Dominicana. O caráter de adesão voluntária do documento foi outro dos eixos da conversa.

“Qualquer que seja o modelo, estamos em um momento em que os Estados devem defender o esquema de direitos no mundo digital e estimular a cooperação para que as respostas não sejam parciais”, disse Enrique Goñi, presidente do Instituto Hermes, em seu papel de moderador.

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Na mesma aldeia esteve Verónica Wahlberg, da Secretaria de Inovação Pública da Argentina, que enfatizou a importância de “garantir que os direitos dos cidadãos offline também sejam garantidos em ambientes digitais”.

Por sua vez, Gladys Antonieta Moran Ríos falou em nome do Ministério das Telecomunicações e da Sociedade da Informação do Equador. “Ratificamos o compromisso de desenvolver ações que assegurem o cumprimento da carta, pois consideramos que as TI são transversais às atividades que desenvolvemos e que não dá para entender as sociedades modernas sem os compromissos digitais”, apontou em nome do país que atualmente tem a presidência pro-tempore da Comunidade Ibero-Americana.

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Assim, os participantes enfatizaram que agora começa a etapa de buscar a aplicação do compromisso firmado. “A carta não reflete a posição de ninguém em particular ou 100% dos interesses de cada um. É fruto do acordo, da pluralidade, e aí reside o seu valor”, concluiu Kawabata, deixando claro que a implementação será a etapa mais complexa desse acúmulo de boas intenções que agora deve se concretizar.