Motorola Solutions avalia instalar um Centro de Dados no Brasil para atender a América Latina

Em entrevista à DPL News, Gustavo Ancheschi, presidente da Motorola Solutions, avalia os desafios da digitalização da segurança pública e revela planos para um data center regional no Brasil. 

O Brasil pode se tornar o novo centro de operações de dados da Motorola Solutions para a América Latina. A empresa analisa instalar um Centro de Dados próprio no país como parte de sua estratégia para responder ao crescimento das plataformas de segurança pública e às crescentes exigências de soberania de dados na região.

Em entrevista ao DPL News, o presidente da Motorola Solutions no Brasil, Gustavo Ancheschi, revela que a iniciativa ainda se encontra em uma fase preliminar de avaliação, embora responda a uma necessidade cada vez mais evidente: manter a informação crítica dos organismos de segurança hospedada dentro da América Latina.

“Estamos avaliando um Centro de Dados para a América Latina, principalmente pela soberania nacional e pela necessidade de manter os dados hospedados aqui”, destacou o executivo.

Atualmente, a Motorola Solutions utiliza a infraestrutura de parceiros como Telebras, Microsoft, Amazon Web Services e Equinix para hospedar as aplicações e as informações de seus clientes. No entanto, são esses provedores que determinam o local onde os dados são armazenados.

A avaliação de um Centro de Dados próprio ocorre em um momento em que as corporações de segurança geram volumes de informação sem precedentes. O uso de câmeras corporais, sistemas de videomonitoramento, plataformas de despacho e soluções de gestão incrementa continuamente a demanda por capacidade de armazenamento e processamento, além de elevar a importância de manter o controle sobre os dados.

Infraestrutura, o elo menos visível

Para Ancheschi, o debate sobre a modernização da segurança pública costuma se concentrar em tecnologias como Inteligência Artificial, reconhecimento facial ou análise preditiva. No entanto, ele sustenta que essas soluções dependem de uma infraestrutura tecnológica robusta, composta por redes de radiocomunicação, plataformas de software integradas e capacidade de processamento de dados.

“Está tudo bem um gestor entregar 500 viaturas e tirar a foto. Mas, sem um sistema de rádio, essas viaturas não funcionam”, afirma.

Essa necessidade adquire maior relevância a poucos meses das eleições de 2026 no Brasil, quando a segurança pública volta a ocupar um lugar central no debate político.

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De acordo com o executivo, o avanço do crime organizado, o aumento dos ciberataques e o déficit aproximado de 250,000 agentes de segurança pública obrigam a tecnologia a ser considerada um componente essencial para aumentar a capacidade operacional das instituições.

“O crime evoluiu e se sofisticou. Diante disso, resulta impossível para qualquer administração gerir a segurança pública sem tecnologia”, assegura.

No entanto, ele adverte que a realidade brasileira continua sendo heterogênea. Enquanto alguns estados já demandam soluções avançadas baseadas em Inteligência Artificial, outros ainda enfrentam limitações de infraestrutura e baixos níveis de digitalização.

Além disso, as administrações públicas costumam privilegiar investimentos com maior visibilidade política, como a aquisição de viaturas ou câmeras, deixando em segundo plano a infraestrutura que permite operar esses sistemas.

Fragmentação tecnológica no Brasil

No contexto latino-americano, Ancheschi considera que o Brasil se destaca pela adoção de sistemas de videomonitoramento e câmeras corporais, impulsionada por diversos projetos estaduais.

No entanto, ele aponta que a Colômbia e a Argentina mostram uma maior maturidade na integração dos softwares utilizados pelas distintas instituições de segurança pública. No Brasil, a fragmentação tecnológica continua dificultando a interoperabilidade entre polícias, corpos de bombeiros e outros organismos que participam de operações conjuntas.

“Acho que falta uma maior unificação e padronização”, indica.

Para o executivo, o sucesso dos investimentos tecnológicos dependerá também da continuidade das políticas públicas. Em sua opinião, a modernização da segurança exige projetos de longo prazo capazes de sobreviver às mudanças de governo, de modo que a infraestrutura, as comunicações e a inteligência funcionem de maneira integrada tanto na prevenção quanto na resposta ao crime.