Latam, Latam, Latam… Vendo apenas as costas da Telefônica

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Na mais recente Assembleia Geral Ordinária da Telefônica, o presidente Marc Murtra foi confirmado com 90,7% de apoio, sucedendo José María Álvarez-Pallete. Sua mensagem foi clara e contundente: “A prioridade será Europa, Europa e Europa.” 

Sob esse mantra, a empresa espanhola acelerou seu abandono sistemático da América Latina, região que por décadas foi seu motor de crescimento. Somente o Brasil sobrevive como “mercado central. Com sua insistência, o executivo fechou simbolicamente um ciclo histórico em que a Telefônica era sinônimo de expansão ibero-americana, liderança tecnológica e ambição global. Hoje, essa visão se transformou em uma estratégia de contenção, recuo e reorientação geográfica que deixa a América Latina diante de seu antigo aliado.

Nos últimos anos, a Telefônica vendeu suas operações na Argentina, Colômbia, Uruguai, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Panamá, Costa Rica e Peru, e está tomando medidas semelhantes no Chile e no México. De seu antigo império latino-americano, apenas o Brasil e a Venezuela permanecem, sem sinais de recuo. O contraste é claro: de operadora dominante ou concorrente em todos os territórios, ela desapareceu do mapa ou se dissolveu como Operadora de Rede Móvel Virtual (MVNO) no México.

A saída da Telefônica da maioria dos mercados latino-americanos tem profundas implicações sociais e econômicas. Trata-se de uma medida empresarial e está ancorada em um imperativo financeiro: a necessidade de sanear seu balanço e reduzir a dívida, que tem sido um fardo persistente há anos. A empresa declarou explicitamente que sua estratégia de gestão de ativos busca “reduzir gradualmente a exposição à América Latina” para realocar capital para mercados mais rentáveis e reduzir sua alavancagem. 

Essa estratégia, embora gere milhões em perdas de capital no curto prazo, é vista como uma forma de gerar valor para os acionistas e atingir objetivos financeiros. Os desinvestimentos refletem com precisão a magnitude da recuperação. Algumas vendas foram estratégicas e lucrativas; outras foram reativas ou de sobrevivência. O objetivo comum tem sido reduzir a dívida, reordenar prioridades e se concentrar em mercados onde a Telefônica pode manter sua relevância sem continuar competindo em ambientes com baixo ARPU, alta complexidade política ou regulatórios adversos.

A saída da América Latina é uma “otimização de portfólio”, mas também é um sintoma de problemas estruturais, como dívida insustentável. A Telefônica priorizou o pagamento de dividendos (€ 2,1 bilhões em 2023) em vez de investir em redes latino-americanas. 

A empresa também enfrenta uma rentabilidade desigual: o Brasil gera uma margem EBITDA de 40%, em comparação com 18% da Hispam. A falta de adaptação é evidente, pois não desenvolveu modelos de negócios para mercados de baixo poder aquisitivo. Enquanto no Peru promovia a “Internet para Todos” (rede de atacado rural), na Argentina e na Colômbia cortava investimentos.

A Telefônica realizou a maior liquidação territorial da história das telecomunicações latino-americanas. A tabela a seguir detalha o desmantelamento progressivo de seu antigo império de telecomunicações. O total dos desinvestimentos da Telefônica na América Latina, considerando transações em dólares e a conversão de euros para dólares a uma taxa de câmbio média de 1 EUR = 1,0982 USD em 2025, é de aproximadamente US$ 4.488,41 milhões.

Desinvestimentos da Telefônica na América Latina (2019-2025)

PaísAno de admissãoCompradorQuantiaData da vendaStatus
Guatemala1998América Móvil€ 293 milhões29 de janeiro de 2019Vendido
Nicarágua2005Millicom (Tigo)US$ 430 milhões16 de maio de 2019 (encerramento da aquisição)Vendido
Panamá2011Millicom (Tigo)€ 536 milhões28 de fevereiro de 2019 (acordo)Vendido
Costa Rica2011Liberdade América LatinaUS$ 538 milhões30 de julho de 2020 (acordo) / 9 de agosto de 2021 (encerramento)Vendido
El Salvador1998América Móvil (falhou) General International Telecom (bem-sucedida)US$ 144 milhões24 de janeiro de 2019 (acordo inicial) / 15 de outubro de 2021 (venda final)Vendido
Argentina1990Telecom ArgentinaUS$ 1,245 bilhão24 de fevereiro de 2025Vendido sob revisão regulatória
Peru1994Integra Tec International€ 900.00019 de abril de 2025Vendido
Uruguai2005Millicom (Tigo)US$ 440 milhões2025Vendido
Colômbia2006Millicom (Tigo)US$ 400 milhões12 de março de 2025Vendido sob revisão regulatória
Equador2005Millicom (Tigo)US$ 380 milhões13 de junho de 2025Vendido
Pimenta1990Em andamento (aconselha o Citi)InvestimentoPropriedade da Telefônica
México2000Em andamento (recomendado pelo JP Morgan)Ela opera como uma MVNO na rede da AT&T México.Propriedade da Telefônica
Brasil1998Mercado principalPropriedade da Telefônica
Venezuela1994Investimento limitadoPropriedade da Telefônica
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Com base nos desinvestimentos totais, o desembolso da Millicom inclui operações na Nicarágua, Panamá, Colômbia, Equador e Uruguai, totalizando aproximadamente US$ 2.238,64 milhões, equivalente a 49,88% do total das operações, consolidando sua posição como a maior compradora de antigas subsidiárias da Telefônica na América Latina. 

A segunda maior compradora é a Telecom Argentina, que pagou US$ 1,245 bilhão (27,74%), sendo a transação mais cara individualmente. A Liberty Latin America pagou US$ 538 milhões pela empresa costarriquenha (11,99%). O valor referente à América Móvil corresponde à venda da subsidiária guatemalteca, equivalente a € 293 milhões (7,17%). A General Internacional Telecom, que adquiriu a operação em El Salvador por US$ 144 milhões, representa 3,21% de todos os desinvestimentos. Por fim, a venda do Peru para a Integra Tec foi feita por um valor nominal de € 900.000, assumindo uma dívida considerável.

Compradores das filiais da Telefônica e percentagem

CompradorPaísesDesembolso total (milhões de dólares)Porcentagem do total
Millicom (Tigo)Nicarágua, Panamá, Colômbia, Equador e Uruguai.2.238,6449,88%
Telecom ArgentinaArgentina1.245,0027,74%
Liberdade América LatinaCosta Rica53811,99%
América MóvilGuatemala321,787,17%
Telecomunicações Internacionais GeraisEl Salvador1443,21%
Integra Tec InternationalPeru0,990,02%

Causas da retirada

As motivações da Telefônica para se retirar da América Latina são múltiplas e estruturais. 

O aspecto mais óbvio é um modelo de negócios mal adaptado. A Telefônica tentou replicar seu modelo europeu nos mercados latino-americanos sem adaptá-lo suficientemente às condições locais. Baixo ARPU, informalidade, baixa produtividade e altas taxas de rotatividade geraram margens estreitas e pouco atrativas para uma empresa que operava com custos elevados.

A volatilidade macroeconômica é outro fator determinante na região. Inflação, desvalorizações, instabilidade política e restrições cambiais corroeram os balanços de países como Argentina, Colômbia e Venezuela. O risco-país de cada mercado foi um fator determinante na decisão de saída.

O componente mais crítico foi a dívida crônica da Telefônica, que inicialmente financiou sua expansão, mas posteriormente forçou uma contração. A Telefônica acumulou uma dívida de € 56,3 bilhões em 2011, forçando-a a desinvestir em ativos estratégicos para reduzi-la. Ao final de 2024, sua dívida atingiria € 27,16 bilhões. Esse ajuste financeiro foi alcançado, em parte, à custa da redução de sua presença na América Latina.

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América Central: uma região pouco rentável

O primeiro passo decisivo na retração da Telefônica foi a venda de suas operações na América Central em 2019. A estratégia consistia em vender as subsidiárias em bloco para os dois principais concorrentes da região: América Móvil (Claro) e Millicom (Tigo). El Salvador e Guatemala foram vendidos para a América Móvil por US$ 648 milhões. No entanto, a transação em El Salvador se complicou e acabou sendo cancelada por mútuo acordo em 2020, devido a condições impostas pelo regulador, visto que a América Móvil ultrapassaria sua participação no espectro de radiofrequências. 

A Telefônica finalmente vendeu sua subsidiária salvadorenha para um fundo britânico (General International Telecom) em 2021 por € 125 milhões. Ao mesmo tempo, a Millicom adquiriu operações na Nicarágua, Costa Rica e Panamá por um total de US$ 1,65 bilhão. O acordo com a Costa Rica também foi renegociado e vendido de última hora para a Liberty Latin America por US$ 538 milhões. 

O padrão de vendas demonstra um mercado com baixa lucratividade para um terceiro concorrente, o que favoreceu a consolidação nas mãos da América Móvil, Millicom e maior expansão da Liberty Latin America.

Peru, Argentina, Colômbia, Equador e Uruguai: mercados enfrentam uma batalha difícil

O período de 2025 testemunhou o recuo mais recente e decisivo da Telefônica. A empresa vendeu sua subsidiária argentina para a concorrente Telecom por US$ 1,245 bilhão, uma transação que consolida a liderança da Telecom Argentina e reduz a presença de operadoras no mercado. Esta transação ainda está sob análise da autoridade de concorrência, que a vê com desconfiança.

Na Colômbia, a venda de sua subsidiária para a Millicom por US$ 400 milhões dá continuidade ao processo de desinvestimento  . No Equador, a subsidiária foi vendida para a Millicom por US$ 380 milhões.

Apesar de ser líder no mercado peruano, este caso é o mais exemplar da dificuldade de operar na região. A venda para a Integra Tec Internacional foi feita pela quantia simbólica de apenas 3,7 milhões de soles (aproximadamente 900.000 euros), em troca da compradora assumir uma dívida de mais de 2 bilhões de euros. 

O Uruguai foi vendido para a Millicom por US$ 440 milhões, consolidando a presença da Tigo no Cone Sul. O pequeno mercado (3,5 milhões de habitantes) e a intensa concorrência tornaram inatingíveis as economias de escala necessárias para justificar os investimentos em 5G.

Mais uma vez, o padrão de saída se deve a um fator comum: a intensa concorrência em telefonia móvel e fixa, que, aliada às dificuldades econômicas de cada país (como a hiperinflação na Argentina ou a dívida no Peru), impossibilitou que as operações em mercados de baixo ARPU fossem suficientemente lucrativas.

E a Venezuela? 

Paradoxalmente, a Telefônica mantém operações em um dos países mais complexos da região. Apesar da hiperinflação e da instabilidade política, a Telefônica mantém operações na Venezuela devido à sua baixa exposição financeira (suas operações são mínimas, a empresa opera apenas com 4G e seus planos de investimento totalizam US$ 500 milhões em dois anos para modernizar sua infraestrutura e implementar o 5G). A empresa também adota uma estratégia de esperar para ver: antecipa uma mudança geopolítica que lhe permitirá vender a um preço melhor.

A explicação também é pragmática: uma retirada da Venezuela implicaria uma perda absoluta de valor devido à falta de compradores e às restrições legais. Reflete também um compromisso de longo prazo com um possível processo de liberalização econômica. O fato é que a empresa continua operando naquele território, abandonando mercados mais estáveis, o que demonstra a natureza errática de sua estratégia. Ou então, a operadora se sente confortável negociando em um país de democracia duvidosa.

Por fim, há um componente estratégico e oportunista em um mercado cativo. Dada a falta de investimento dos concorrentes, a Telefônica pode enxergar uma oportunidade de se tornar líder tecnológica em 5G. Esse compromisso com a Venezuela demonstra que a estratégia da Telefônica é mais do que uma simples retirada; é um reposicionamento seletivo e oportunista, mesmo nos mercados mais arriscados, quando as circunstâncias (políticas, de reputação ou de mercado) o justificarem.  

México: da beligerância à capitulação 

A situação da Telefônica no México é uma das mais inusitadas. A empresa se caracterizou por sua postura beligerante contra a América Móvil (Telcel e Telmex), denunciando práticas monopolistas perante o órgão regulador (primeiro a Cofetel, depois o Instituto Federal de Telecomunicações). 

A reforma das telecomunicações de 2013 no México buscou equilibrar o mercado e limitar o poder do atual player econômico dominante (América Móvil). No entanto, apesar da imposição de medidas assimétricas pelo regulador, a Telefônica concluiu que o mercado permanecia inviável para suas próprias operações de rede. Quando atingiu seu objetivo (como a regulamentação assimétrica das tarifas de interconexão), não conseguiu capitalizá-lo. Em vez de investir em infraestrutura, devolveu seu espectro de rádio ao Estado.

A empresa optou por uma retirada estratégica de fato. Em uma reviravolta drástica, a Telefônica México decidiu devolver o espectro móvel (uma inovação na região) e se tornou uma Operadora de Rede Móvel Virtual (MVNO) que utiliza a rede da AT&T para hospedar seus serviços. 

O processo foi meticuloso: em 31 de dezembro de 2020, a Telefônica devolveu o espectro de 850 e 1900 MHz para as Regiões 1, 3 e 4, com o restante pendente entre o final de 2021 e meados de 2022. Em 2022, a empresa havia migrado totalmente seu tráfego móvel 3G e 4G para a rede da AT&T e já havia devolvido todas as suas concessões de espectro ao regulador. Essa transição gerou € 95 milhões (US$ 104 milhões) para a Telefônica, à custa de sua independência operacional.

A decisão elimina a necessidade de grandes investimentos em infraestrutura. Em contrapartida, a empresa perde a capacidade de operar com rede própria, reduzindo a concorrência no mercado. O IFT atendeu às exigências regulatórias da Telefônica, mas a empresa acabou se retirando, deixando aos reguladores a lição crucial de alinhar as políticas de concorrência com a viabilidade econômica dos investimentos em infraestrutura.

E o Chile? 

Embora a venda não tenha sido formalizada, tudo indica que a Telefônica busca sair do mercado chileno. A concorrência acirrada, as margens em queda e o avanço de players disruptivos como a WOM e de empresas locais fortes como a Entel tornaram o país, líder em digitalização, menos atraente para a operadora espanhola.

Brasil: “mercado principal” 

O Brasil é o único país da América Latina que a Telefônica declarou ser um ” mercado principal “. Por meio da marca Vivo, a empresa consolidou sua liderança em telefônia móvel e fibra óptica, com um modelo de negócios que se mostrou bem-sucedido e lucrativo. 

Em 2025, o grupo comemorou o crescimento de 6,2% na receita da Vivo e o sucesso do seu pacote convergente “Vivo Total”, que combina fibra e telefônia móvel, resultando em maior valor médio por cliente (ARPU) e menor taxa de churn. 

O crescimento do acesso por fibra óptica residencial (FTTH) também foi significativo, alcançando 29,6 milhões de domicílios e liderando a base de clientes. Os motivos para a presença contínua da Telefônica no Brasil são sua rentabilidade, escala de mercado e um ambiente regulatório mais favorável, como a migração das concessões de telefônia fixa para o regime de licenciamento, uma decisão que facilita o investimento, a modernização e a racionalização de ativos.  

A Europa como álibi: dois pesos e duas medidas tecnológicos

O discurso de Murtra simboliza um projeto de consolidação global que não se sustentaria. A visão expansionista que levou a empresa a mercados tão diversos como China, República Tcheca e Irlanda deu lugar a um modelo conservador focado na Espanha, Alemanha e Reino Unido (embora não tenha conseguido vender suas operações neste último país). O novo foco na Europa é uma estratégia de sobrevivência para competir com gigantes com grande capacidade de investimento que dominam o cenário tecnológico global, como a Deutsche Telekom e a Vodafone, sem mencionar a AT&T, a Verizon e operadoras chinesas e do Oriente Médio.

Murtra justifica a mudança para a Europa argumentando que a fragmentação regulatória europeia dificulta a inovação. No entanto, na Espanha, a Telefônica lidera projetos de ponta, como Quantum-Safe Networks (criptografia pós-quântica) e Open Gateway (APIs unificadas para desenvolvedores). Na Alemanha e no Reino Unido, a empresa promove redes 5G de alta capacidade.

Por que não replicou esses modelos na América Latina? A resposta é simples: rentabilidade a curto prazo. A Telefônica exige “compensação justa” ( fair share ) dos reguladores latino-americanos para gigantes da tecnologia como Netflix, Google e outras plataformas de internet, mas não investiu na preparação de suas redes para essas demandas.

Novos fatores estratégicos: Arábia Saudita e o Estado espanhol

A narrativa da reestruturação financeira da Telefônica esteve entrelaçada com um importante evento geopolítico. A entrada surpreendente do grupo saudita STC em 2023, que adquiriu uma participação de 9,9% na Telefônica por € 2,1 bilhões, tornando-se o maior acionista, um movimento que abalou o cenário político e financeiro da Espanha. A compra foi apresentada como um investimento financeiro, não como um investimento de controle. 

O STC Group é a principal operadora de telecomunicações da Arábia Saudita e é controlado por seu fundo soberano, o Fundo de Investimento Público. A reação do governo espanhol foi rápida. Descreveu a Telefônica como uma “empresa estratégica” para o país e implementou um “escudo anti-takeover”, exigindo que qualquer aquisição de mais de 10% fosse autorizada. A resposta do Estado foi adquirir uma participação de 10% no capital da empresa por meio da Sociedade Estatal de Participação Industrial (SEPI).  

Este episódio confirma que, apesar dos seus problemas, a Telefônica continua a ser um carro-chefe do capitalismo espanhol, uma empresa considerada estratégica pelo seu papel em infraestrutura crítica, defesa (através da sua aliança com a Indra) e pela sua influência geopolítica. O controlo estatal indireto marca um novo capítulo no qual o governo espanhol procura evitar a “perda da soberania digital”.

Iniciativas como o Open Gateway: uma empresa de tecnologia sem território?

Uma das iniciativas mais ambiciosas da Telefônica é a iniciativa Open Gateway, lançada em conjunto com outras operadoras globais sob a égide da associação de operadoras de telefonia móvel GSMA. Essa proposta busca abrir redes por meio de APIs padronizadas, permitindo que desenvolvedores e terceiros criem serviços digitais com mais facilidade em troca de monetização. 

A Telefônica liderou esse esforço com a visão de se tornar uma plataforma digital interoperável, menos dependente do tráfego tradicional de voz e dados.

No entanto, o abandono da América Latina contrasta com essa visão de universalidade digital. Como a Telefônica pode liderar um ecossistema global de APIs se não possui mais redes próprias na maior parte da América Latina? Sua influência na região está enfraquecendo e, com ela, sua capacidade de ser uma plataforma relevante nos países dos quais decidiu se retirar.

A Telefônica afirma estar em transição para uma “techco”. Uma empresa digital, ágil, focada em plataformas e impulsionada pela tecnologia. A empresa fez progressos significativos na Espanha: implantação massiva de fibra óptica, liderança em 5G, desligamento de redes de cobre legadas e compromisso com segurança cibernética, inteligência artificial e data centers. 

A empresa também se diversificou com a Telefônica Tech, Telefônica Infra e Telefônica Open Innovation, pois a transformação digital é inevitável. A Telefônica priorizou ser uma “telco” na Europa (fibra ótica, 5G), mas na América Latina não evoluiu para uma “techco” (serviços em nuvem, IoT, segurança cibernética). Os resultados de 2024 mostram um crescimento de 10% na receita da Telefônica Tech, o que valida essa visão.

Tudo isso está acontecendo na Europa. Na América Latina, a Telefônica não consolidou esse salto tecnológico. Saiu antes de modernizar suas redes, lançar sua visão digital em larga escala e liderar um ecossistema digital robusto. Em termos de legado, a empresa não se tornou uma “techco” na América Latina: ela desapareceu.

Lições para a América Latina: abandonadas, não derrotadas

A saída da Telefônica oferece várias lições. Para os reguladores, a instabilidade regulatória (mudanças políticas constantes no Peru, espectro caro no México, falta de renovação de concessões no Equador, etc.) afasta os investimentos. Uma maior cooperação público-privada é necessária na região, como licitações para o 5G e modelos como a Lei das Antenas no Brasil, que facilitou a implantação do 5G. 

As autoridades reguladoras terão que aceitar a saída da operadora e promover modelos sustentáveis sem depender de grandes multinacionais que se retiram quando o ambiente se torna adverso.

Para o setor, operadoras regionais como a Millicom (Tigo) demonstram que operar na América Latina é viável. A Millicom conquista clientes e otimiza custos com escala regional.

Para a sociedade, os latino-americanos não são cidadãos de segunda classe. Eles merecem conectividade de qualidade, acesso ao 5G e os benefícios da transformação digital. A saída da Telefônica abre caminho para players locais e novos modelos de negócios baseados em conectividade.

A saída da Telefônica deixa um legado misto. Uma região com menor concorrência estrutural em vários países, o que reforça o foco na consolidação do setor de telecomunicações. Um sinal negativo para futuros investidores internacionais. Um mercado fragmentado com desafios pendentes em cobertura, 5G, infraestrutura digital e conectividade social.

A Telefônica foi promotora de modelos de compartilhamento de infraestrutura e iniciativas de compartilhamento justo por OTTs, e participou de iniciativas importantes como a Internet para Todos no Peru, juntamente com o BID Invest e o Facebook. Sua retirada deixa essas agendas sem um defensor forte. Outro exemplo notável é o acordo com a Millicom (Tigo) para criar uma rede unificada de acesso móvel na Colômbia, um modelo que permite investimentos mais eficientes, implantação mais rápida e redução de custos em mercados de baixa rentabilidade.

Epílogo

A América Latina precisa parar de depender de multinacionais para sua conectividade digital. Ela precisa de modelos próprios, operadores regionais fortes, marcos regulatórios dinâmicos e financiamento público-privado.

A transformação digital deve ser contextual e adaptada às necessidades do ecossistema local e regional. Não existe uma fórmula universal, muito menos uma que venha da Europa quando se trata de sua liderança digital. Os operadores devem compreender a realidade social, econômica e digital de cada país. O desafio da América Latina é conectar, criar empregos, viabilizar direitos fundamentais, desenvolver a produtividade, conectar PMEs e digitalizar indústrias. 

Os reguladores devem garantir a sustentabilidade e evitar se deixar levar por miragens regulatórias como o domínio do México, a regulamentação assimétrica europeia, o compartilhamento obrigatório de infraestrutura ou os altos preços do espectro em países como os Estados Unidos. Regular preços ou concorrência não basta. Devemos incentivar o investimento, facilitar a implantação de infraestrutura, a inovação, a colaboração com os governos e a resiliência diante de crises macroeconômicas.

Conectividade é um direito, não um luxo. Os povos da América Latina merecem as mesmas oportunidades digitais que europeus, americanos ou asiáticos. Banda larga, inteligência artificial, nuvem, segurança de infraestrutura crítica e tecnologia não devem ser privilégios do Norte.

A saída da Telefônica é o fim de uma era e o sinal de uma oportunidade. Ela está virando as costas para a América Latina e perdendo 650 milhões de usuários em potencial. A Telefônica esqueceu que tecnologia não se trata apenas de estabilidade financeira; é um direito fundamental. A América Latina precisa construir seu próprio modelo digital, sustentado por investimentos, redes com cobertura social, conectividade significativa, regulamentação inteligente e uma visão de inclusão digital universal. As empresas de telecomunicações locais, novos players e, em alguns casos, os governos têm a responsabilidade de preencher essa lacuna. 

Latam, Latam, Latam é o grito que a Telefônica nunca ouviu. O futuro digital da região depende daqueles que acreditam nele, não daqueles que veem apenas demonstrações financeiras. Latam, Latam, Latam, uma região cujos habitantes têm direito à infraestrutura, à conectividade e à inovação que a empresa prometeu em seu auge. Latam, Latam, Latam não pode continuar a depender da Europa para resolver seus problemas regulatórios. Ela precisa olhar para dentro, aprender com o passado e construir seu futuro digital com soberania, inovação e inclusão social.