Infraestrutura digital: consolidar ou morrer

Jorge Fernando Negrete P.

Tenho destacado que a consolidação do setor de infraestrutura digital, antes de telecomunicações, é uma necessidade imperativa. As necessidades do setor são críticas e enfrentam desafios que posso denominar como épicos.

O 5G exige uma nova infraestrutura que não existia e que combina a antiga infraestrutura de telecomunicações. Estou me referindo ao uso da Nuvem, Edge Computing (computação na borda), WiFi-6 e à integração entre a infraestrutura móvel e fixa.

A primeira resposta de muitos operadores tem sido vender sua divisão de nuvem, torres e fibra óptica. Por outro lado, alguns fortaleceram sua estrutura, criando novas divisões ou empresas especializadas que, inclusive, cotizam na Bolsa. Estamos falando de um ecossistema ponta a ponta, ou, como se diz em anglicismo, end to end.

As funções de conectividade, nova arquitetura tecnológica e as tradicionais aplicações e equipamentos de TIC são um só nesta etapa de evolução da tecnologia digital. Surgem as empresas de infraestrutura digital e enfrentam novos desafios. Aqui estão alguns deles:

  • Devem consolidar seu modelo de infraestrutura. Integrar novos elementos neste modelo ponta a ponta.
  • Devem realizar novos investimentos e capitalizar suas empresas.
  • Devem enfrentar um ambiente regulatório antiquado, inibidor de investimentos e que favorece a regulamentação antiga em termos de competição econômica em comparação com novos desafios, como mais investimentos para reduzir a divisão digital, inovar e ser competitivas.
  • Em um mundo 5G, são necessárias 10 vezes mais espectro radioelétrico e os preços exorbitantes tornam esse recurso literalmente inacessível.
  • Elas enfrentam um ambiente geopolítico (Europa, Ásia e China) que as pressiona a acessar soluções tecnológicas.
  • Devem oferecer melhor qualidade de serviço, mais largura de banda, serviços integrados, preços baixos e são obrigados a expandir a sua infraestrutura nas zonas rurais.
  • Devem diversificar os seus investimentos nos mercados globais para obter economias de escala com fornecedores de tecnologia ou vendors.
  • Elas devem entrar no mercado das soluções tecnológicas, ser inovadoras e competitivas, estabelecendo alianças ou desenvolvendo suas próprias capacidades de desenvolvimento de software. Isso motivou as primeiras fusões e aquisições entre empresas de TIC e telecomunicações.

Em resumo, as empresas de infraestrutura digital enfrentam o desafio de investir quantias massivas de recursos financeiros, tornarem-se mais inovadoras e dinâmicas em um ambiente de pressões econômicas, competitivas e regulatórias extremas. Durante a pandemia, Brasil e Estados Unidos consolidaram seus mercados de quatro para três operadoras. A China possui três operadoras para servir a uma população de 1,3 bilhão de habitantes. No México, o mercado de operadoras móveis também foi consolidado, passando de três para duas operadoras móveis e mantendo quatro grandes operadoras fixas.

Essa cultura regulatória gera uma concorrência artificial e foi exportada da Europa para o México e a América Latina há vários anos. Na Europa, criou-se um mercado com quase 100 operadoras, com um PIB Telecom semelhante ao dos Estados Unidos; e a América Latina imitou esse modelo, com muitas operadoras em cada país. São negócios sem escala.

José María Álvarez-Pallete, presidente de Telefónica Movistar, declarou em junho de 2020: “Telefónica participará na consolidação do setor”. E, em fevereiro de 2023, reiterou: “a fragmentação não faz sentido, acredito na consolidação”.

Finalmente, neste mês, Thierry Breton, Comissário Europeu do Mercado Interno, afirmou que é imprescindível que a Europa “tenha operadoras de telecomunicações com o tamanho e agilidade necessários para se adaptar à revolução tecnológica”, mas reconhece que “a fragmentação de mercado que existe no Velho Continente as impede de abordar esse processo”.

A sobrerregulação europeia já influenciou negativamente uma geração de reguladores na América Latina e agora temos regulamentações exorbitantes, como no México e a questão da preponderância.

O medo da regulamentação mata a inovação, os investimentos das empresas e marginaliza os cidadãos.

Presidente de Política e Direito Digital

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