“Free cooling é uma mentira”: especialistas expõem os desafios energéticos e estruturais dos data centers
São Paulo, Brasil.– “Free cooling é uma mentira. Não existe almoço grátis.” A declaração de Frederico Neves, diretor de Serviços e Tecnologia do NIC.br, sobre data centers, sintetiza uma das principais preocupações do setor: a eficiência energética real diante de um cenário de expansão acelerada e exigências cada vez maiores, como a chegada da inteligência artificial.
No evento LACNIC 43, que se iniciou nesta terça-feira (6) e reuniu especialistas desta indústria na América Latina, foram destacados os principais gargalos enfrentados por quem atua na construção, operação e expansão dessas infraestruturas críticas, com um foco especial no Brasil.
Frederico criticou a ideia de que métodos passivos de resfriamento sejam suficientes para garantir sustentabilidade: “Um data center é uma grande torradeira — tudo vira calor. Mesmo com sistemas ultraeficientes, o Brasil é tropical. Não dá para fugir do investimento em tecnologias robustas de rejeição térmica, como o direct liquid cooling (DLC)”.
Heubert River, chefe de operações de data center da Cirion, reforçou que, embora o Brasil tenha 93% de sua energia proveniente de fontes limpas, um recorde no mundo, a dimensão continental do país impõe dificuldades: “Construir data centers de alta densidade em regiões mais remotas, como o Nordeste, é um desafio logístico e de infraestrutura energética”.
O problema, segundo ele, se agrava na transmissão: “O Operador Nacional do Sistema (ONS) já precisa restringir a distribuição de energia eólica no Nordeste por falta de estrutura adequada. Isso trava investimentos bilionários”.
Já Esther Fernandes, chefe de estratégia de interconexão da Telxius, abordou o panorama geopolítico e fiscal. “As fontes energéticas na América Latina não são tão diversas, e os data centers estão centralizados nas capitais. O México hoje é mais vantajoso para investidores dos EUA. Mas o Brasil também tem chances reais de conseguir atrair players com uma política estável e incentivos claros.”
Outro ponto recorrente foi a formação profissional. Para Rafael Astuto, gerente executivo de engenharia de vendas da Ascenty, “o maior gargalo é o fator humano. Precisamos criar uma cultura nacional de data centers desde escolas técnicas até universidades corporativas. Muita gente fala de nuvem, mas nem sabe explicar o que é um data center.”
Ele também destacou que os desafios operacionais se intensificam com a chegada dos data centers voltados à inteligência artificial, que exigem novas configurações, maior resfriamento e pessoal qualificado.
Por fim, foi discutida a repatriação de workloads da nuvem pública para infraestruturas locais, motivada por custos, latência e soberania de dados. Isso cria uma demanda urgente por mais instalações, especialmente fora dos grandes centros.
A mensagem final dos painelistas foi clara: o Brasil pode se tornar um polo global de dados, mas precisa resolver entraves na transmissão de energia, investir em tecnologia térmica eficiente, reduzir barreiras fiscais e, acima de tudo, formar pessoas. “Estamos diante de um trem de oportunidade. Ou subimos agora, ou ficamos para trás”, concluiu Astuto.