Anatel: nova competição está nos ecossistemas digitais

O novo relatório de concorrência da Anatel mostra que as empresas de telecomunicações no Brasil não competem mais em tamanho, mas sim buscam posicionamento estratégico dentro dos ecossistemas digitais.

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A competição entre as operadoras de telecomunicações no Brasil não gira mais em torno apenas de cobertura, infraestrutura ou número de clientes. Agora, a nova frente competitiva se concentra na capacidade de construir ecossistemas digitais que integrem conectividade, computação em nuvem, dados, plataformas e serviços digitais de valor agregado.

Segundo o Relatório de Monitoramento da Concorrência do primeiro trimestre de 2026, publicado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o tamanho de uma empresa já não explica, por si só, sua posição no mercado.

Atualmente, a capacidade de combinar redes com soluções tecnológicas e capturar novas fontes de receita nos segmentos corporativo e digital é mais importante . Essa mudança reposiciona as empresas de telecomunicações como atores tecnológicos mais abrangentes.

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A Anatel identifica quatro grandes grupos que explicam a nova dinâmica do mercado brasileiro. O primeiro grupo inclui as grandes operadoras nacionais: Vivo, Claro e TIM Brasil, que controlam 95,2% do mercado de telefonia móvel.

Embora mantenham sua liderança histórica em conectividade, sua estratégia tem se voltado para modelos “telco-tech” , com investimentos crescentes em soluções B2B, segurança cibernética, serviços financeiros e plataformas digitais.

O segundo grupo é composto por empresas regionais de fibra óptica, como Alloha Fibra, Brasil TecPar, Vero Internet e Alares. Essas empresas cresceram em tamanho por meio de aquisições e da consolidação de operadoras menores, principalmente no mercado residencial.

Entretanto, um terceiro grupo inclui empresas como a Brisanet e a Unifique , que procuram superar as suas limitações regionais, dando o salto para os serviços móveis com a sua própria infraestrutura 4G e 5G.

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Por fim, milhares de provedores locais mantêm a concorrência viva na banda larga fixa graças à sua proximidade geográfica, rapidez de instalação e atendimento personalizado.

Cada um desses blocos integra o que a Anatel denominou “clusters”, que seguem uma lógica baseada no posicionamento estratégico dentro dos ecossistemas digitais .

Segundo a análise da Agência, o mercado corporativo tornou-se a nova arena competitiva. Como prova, seis em cada dez clientes empresariais já preferem ofertas integradas de conectividade e nuvem .

O 5G ganha velocidade

O Brasil encerrou o trimestre com 271,3 milhões de acessos móveis , número que reflete um crescimento anual moderado de 3% e confirma que o mercado entrou em um estágio de maturidade em volume.

O relatório indica que a expansão atual decorre da migração tecnológica e de uma melhor monetização da base existente.

Em particular, as conexões 5G atingiram 61,2 milhões , com um aumento anual de 39,7%, impulsionado principalmente por usuários que abandonaram o 4G e migraram para a nova tecnologia.

Ao mesmo tempo, o segmento pós-pago já representa 65,5% do total, o que fortalece as receitas das operadoras sem a necessidade de adicionar um grande volume de novas linhas.

No entanto, o relatório alerta que a estrutura competitiva permanece concentrada. O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI), usado para medir a saúde da concorrência, foi de 0,3077 no primeiro trimestre, mostrando que o mercado de dispositivos móveis continua sendo dominado por três grandes empresas .

Fibra resistente, mercado fragmentado

O cenário é diferente no segmento de banda larga fixa . Nesse segmento, o índice HHI situa-se em 0,0696, refletindo uma estrutura muito mais descentralizada . O Brasil registrou 54,6 milhões de conexões de banda larga fixa, sendo a fibra óptica a tecnologia dominante, com 43,25 milhões de conexões.

Os operadores de menor porte detêm 57,3% do mercado, embora o trimestre também tenha apresentado sinais de arrefecimento, com uma redução líquida de 0,7 milhão de acessos. Isso sugere que o segmento está entrando em uma fase mais madura, onde o crescimento orgânico está perdendo força e a consolidação está ganhando importância.

Nesse contexto, o relatório identifica a compra da Desktop pela Claro por 2,4 bilhões de reais como um sinal inicial de uma nova rodada de aquisições estratégicas.

O OTT está substituindo os modelos tradicionais.

O relatório também confirma que uma parcela significativa do valor digital está migrando do setor tradicional de telecomunicações. As plataformas OTT representam 90,5% do acesso a conteúdo audiovisual; em contrapartida, a televisão por assinatura continua perdendo espaço.

Algo semelhante está acontecendo com os serviços de voz. Alguns aplicativos, como o WhatsApp e o Telegram, mantêm uma participação de mercado superior a 54% e estão gradualmente substituindo a telefonia tradicional como principal canal de comunicação.

MVNOs, espectro e satélites

Outra descoberta importante do relatório é que o mercado de operadoras móveis virtuais (MVNOs) também está ganhando escala. As MVNOs cresceram de 1,4 milhão de conexões em 2021 para 9,84 milhões em 2026 , impulsionadas por ofertas focadas em nichos específicos. Datora e Surf Telecom estão entre os players mais dinâmicos desse mercado.

Entretanto, o próximo leilão da faixa de 700 MHz e a atividade na faixa de frequência de 3,5 GHz estão revitalizando o mercado secundário de espectro. Segundo a Anatel, isso será fundamental para a futura expansão das redes móveis.