Na América Latina, o consumo de notícias via redes sociais já supera amplamente os canais tradicionais, marcando uma crescente dependência dessas plataformas. O destaque vai para WhatsApp, TikTok e YouTube, que superam veículos jornalísticos tradicionais como principal fonte informativa, revela o Digital News Report 2025, elaborado pelo Reuters Institute, que analisou 48 mercados globais, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru.
No Brasil, 37% dos entrevistados disseram utilizar o TikTok para consumo de notícias, superando inclusive o uso em países como México (35%) e Peru (33%). A tendência se estende ao YouTube, com 30% da amostra global usando a plataforma para notícias. Este número é ainda mais expressivo em países da região como Brasil e Colômbia, onde a penetração dessa mídia é intensa.
O Brasil reflete de maneira significativa a transição digital no consumo de notícias. Com 84% da população conectada à internet, o país apresenta uma das maiores taxas de uso de redes sociais para esse fim.
A crescente influência de criadores, aliada ao avanço do vídeo como formato preferido, tem desafiado os veículos tradicionais, especialmente entre os mais jovens. Segundo o relatório, os brasileiros preferem assistir às notícias (55%) do que lê-las (31%) ou ouvi-las (14%), com destaque para o público de 18 a 24 anos.
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Dentro deste recorte, personalidades e influenciadores digitais se consolidam como principais mediadores da informação. No Brasil, figuras como Carlinhos Maia e Virgínia Fonseca, ambos indiciados na CPI das Bets por serem os principais disseminadores das plataformas de apostas online que acabaram por se tornar um pesadelo no país exigindo a intervenção do Estado pelo alto nível de vício e endividamento de milhares de pessoas.
Endividamento esse que gerava lucros a esses influencers: foi constatado que eles recebiam uma porcentagem pela perda das apostas de seus seguidores.
Ocasionalmente, estes mesmos dois exemplos abordam temas noticiosos para suas gigantescas audiências no Instagram (34 milhões de Carlinhos Maia e 54 milhões da Virgínia Fonseca de um público não apenas jovem, mas bastante diversificado).

Desafios regulatórios
Na América Latina, onde o debate sobre regulação de plataformas digitais ainda engatinha, o cenário aponta para a urgência de políticas públicas mais robustas. No Brasil, por exemplo, projetos como o “PL das Fake News”, que visam responsabilizar as plataformas por conteúdos nocivos, estão engavetados no Congresso Nacional.
Em contrapartida, a Suprema Corte já caminha para responsabilizar as redes sociais pelo conteúdo publicado, um movimento alinhado às preocupações do relatório que indica que 58% da audiência global se diz preocupada com sua capacidade de distinguir fatos de boatos na internet.
Assim sendo, os veículos jornalísticos tradicionais ainda são percebidos como as fontes mais confiáveis para checagem de fatos, com 47% dos entrevistados em todo o mundo apontando influenciadores como uma das principais fontes de desinformação, junto com políticos nacionais.
O “trio dominante”: WhatsApp, TikTok e YouTube
Segundo o estudo, o WhatsApp lidera como canal de acesso a notícias em países como:
- Brasil: 43% usam o app semanalmente para se informar.
- Colômbia: 42%
- México: 41%.
- Peru: 38%
- Argentina: 34%
Essas taxas são mais que o dobro da média global (19%). Trata-se de uma via de informação íntima e interpessoal, mas difícil de monitorar. O WhatsApp é percebido como “seguro” por estar entre amigos e familiares, embora seja terreno fértil para desinformação viral fora do alcance de moderação pública.
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Já o TikTok e o YouTube têm grande tração especialmente entre jovens. O TikTok é usado para notícias por:
- Brasil: 37%
- México: 35%
- Peru: 33%
- Colômbia: 27%
O YouTube, por sua vez, tem taxas similares:
- Brasil: 37%
- México: 30%
- Argentina: 28%
- Peru: 33%
- Colômbia: 34%
O relatório aponta ainda oportunidades pouco exploradas como utilização de inteligência artificial para personalização e acessibilidade de notícias e adverte que sem políticas públicas para alfabetização midiática, financiamento sustentável e transparência algorítmica, a região continuará vulnerável à manipulação informacional, especialmente em anos eleitorais.