Impasse nos fósseis, avanço no digital: o balanço final da COP 30

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Os 11 dias da COP 30 terminou no último dia 21 de novembro com sinais mistos: avanços institucionais importantes, frustrações na agenda dos combustíveis fósseis e uma consolidação mais evidente de ferramentas digitais como parte da implementação climática

O encontro de Belém (PA) ocorreu em um cenário geopolítico marcado pela ausência dos Estados Unidos e por disputas comerciais que afetam diretamente tecnologias de descarbonização. Ainda assim, conseguiu produzir instrumentos que reforçam capacidades de ação, especialmente para países do Sul Global.

Em comparação às conferências anteriores, o tema digital apareceu com mais nitidez nessa COP como um habilitador: tudo dentro do esforço de padronizar dados, melhorar previsões, integrar sistemas de alerta e aumentar a transparência. Nesse mesmo eixo, foi formalizado o Green Digital Action Hub (GDA Hub), iniciativa coordenada pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) e parceiros multilaterais para apoiar países a medir a pegada climática do setor digital, padronizar metodologias de reporte e acelerar a adoção de tecnologias verdes.

É nesse contexto técnico-operacional que se insere a proposta brasileira da Infraestrutura Digital Pública para o Clima (Climate DPI). Encabeçada pelo ITS Rio e sustentada pela plataforma TransitionDigital, ela articula um ClimateStack modular com camadas de identificação digital, registros transacionais, observação da Terra, dados padronizados, interoperabilidade via APIs e acesso simplificado para populações vulneráveis, conforme descrito no relatório oficial da Agenda de Ação da COP30

A iniciativa está alinhada à diretriz da Organização das Nações Unidas (ONU) que coloca a inteligência artificial como um dos eixos estruturantes da implementação climática. Segundo a própria proposta brasileira, o sistema poderia reduzir em até 40% o tempo de resposta a eventos extremos até 2035, ao integrar alertas precoces, inventários de emissões, previsão climática e fluxos financeiros de forma auditável.

Esses movimentos reforçam o papel do setor de telecomunicações como parte da infraestrutura necessária à adaptação climática. Redes resilientes, conectividade, satélites e sensores tornam-se componentes da capacidade estatal. 

É nessa lógica que se insere a adesão de empresas do setor como a Telefônica, ao Guía para la Planificación de la Transición Climática para empresas de telecomunicaciones, publicada pela GSMA em parceria com ITU e Carbon Trust. O guia estabelece requisitos auditáveis: governança, integração da transição climática ao planejamento financeiro, rotas de implementação, métricas e alinhamento com padrões como CSRD, CDP, Science Based Targets e NIIF S2. 

Em comunicado, a Telefônica se compromete a adaptar seu plano climático aos parâmetros da GSMA, reforçando sua atuação como operadora de infraestrutura crítica para métricas, certificação e sistemas de alerta.

Quando a maior potência falta

A geopolítica da conferência foi moldada principalmente pela ausência dos Estados Unidos. Com Donald Trump novamente fora do Acordo de Paris e com tarifas sobre tecnologias limpas voltando ao centro da política americana, a COP 30 operou sem o habitual contrapeso diplomático que este país costuma exercer. 

Isso teve dois efeitos: abriu espaço para Europa, Brasil, China e países do Sul Global impulsionarem soluções que priorizam padrões abertos e acesso a tecnologia; e confirmou o alerta feito meses antes por Ana Toni, secretária brasileira de clima, ao Financial Times que o mundo se aproxima de uma guerra comercial climática, capaz de restringir o acesso a tecnologias verdes essenciais: baterias de nova geração, sensores climáticos, satélites de mensuração, relato e verificação (MRV), semicondutores, plataformas de IA para previsão, componentes de energia limpa. Se tarifas, embargos ou rivalidades entre grandes blocos endurecerem, a transição perde velocidade.

A China contou com a segunda maior delegação da COP 30 depois do Brasil. O país asiático atuou de forma pragmática em financiamento e adaptação, mas sem se envolver diretamente na agenda digital proposta pelo Brasil. Já Rússia e Arábia Saudita lideraram a resistência ao roadmap obrigatório dos fósseis, reforçando o bloco produtor e limitando a ambição coletiva.

O Brasil esperava maior coordenação com o BRICS para avançar padrões abertos e cooperação tecnológica, mas o grupo se mostrou menos coeso do que o previsto, sobretudo nos temas energéticos.

Na América Latina, a COP 30 revelou um movimento mais articulado para ganhar capacidade técnica. Colômbia e República Dominicana aderiram ao novo Hub de Plataformas de Países, e outros governos demonstraram interesse em integrar sistemas nacionais de transparência e monitoramento. Para a região, a digitalização climática funciona menos como ruptura e mais como oportunidade de reduzir assimetrias, especialmente na certificação de projetos, acesso a financiamento e construção de métricas comparáveis.

Acordo de Paris

O tema dos combustíveis fósseis foi o mais politicamente sensível da conferência. Apesar da pressão de mais de 80 países por um roadmap global de eliminação de petróleo, carvão e gás, o texto final não incluiu metas obrigatórias: reflexo do bloqueio de grandes produtores como Arábia Saudita e Rússia e da falta de engajamento dos EUA.

Em discurso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu que o Brasil, apesar de sua matriz energética e capacidade verde, é produtor e exportador de petróleo, mas reiterou que está disposto a fazer a transição e transformar a Petrobras em uma empresa de energia limpa. Lula defendeu uma transição “justa, planejada e financiada” e insistiu que responsabilidade histórica e acesso a financiamento devem guiar o ritmo de cada país.

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, reconheceu que não houve consenso para um plano obrigatório, mas anunciou que o Brasil trabalhará em uma estratégia voluntária de transição e em indicadores globais de adaptação, capazes de medir resiliência climática de forma comparável. No conjunto, o balanço sobre fósseis mostrou avanços retóricos, mas não mudança estrutural: a ambição permanece travada, enquanto a implementação avança por meios indiretos — especialmente via dados, métricas e governança.

Foi nesse ponto que o Brasil também apresentou o DataClima+, novo Sistema Nacional de Transparência Climática, descrito oficialmente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A plataforma centralizará inventários de emissões, monitoramento da NDC (Nationally Determined Contribution), dados de adaptação, políticas públicas e informações sobre financiamento climático. 

O sistema atende às regras da Estrutura de Transparência Aprimorada do Acordo de Paris, que exige relatórios bienais a partir de 2024, e integra bases como Sirene, AdaptaBrasil e Sinapse. O DataClima+ representa um avanço estratégico: sem dados consistentes, não há como demonstrar cumprimento do Acordo de Paris nem negociar financiamento em escala.

As chamadas “tecnologias verdes”  (hidrogênio, bioenergia, gestão hídrica, captura e armazenamento de carbono) foram tratadas de forma integrada, com ênfase em certificação, rastreabilidade e padronização. 

Tudo isso consolidou o digital na COP 30 como componente funcional: sem dados verificáveis, metodologias auditáveis e sistemas interoperáveis, esses setores perdem valor econômico e credibilidade. O futuro climático, agora mais urgente do que nunca, dependerá mais da capacidade de implementar: algo que passa por financiamento, tecnologia, cadeia industrial e governança. Resumindo, pura infraestrutura digital.