Desmonte do CGI.br preocupa diretor executivo do LACNIC: “É uma referência global”

Pela primeira vez, o LACNIC (Registro de Endereçamento da Internet para a América Latina e Caribe) realizou sua reunião anual no Brasil em conjunto com um evento local: o Abrint Global Congress (AGC 2025). A aproximação da organização com a comunidade brasileira acontece em uma conjuntura importante: enquanto reguladores discutem mudanças estruturais nas normas de governança da internet, o diretor executivo do LACNIC, Ernesto Majó, demonstra preocupação com a possível descaracterização do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), considerado um modelo internacional.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva:

DPL News: Ernesto, é um prazer conhecê-lo. Parabéns pela recente posse do LACNIC.

Ernesto Majó: Muito obrigado! Sim, é recente, desde novembro passado.

DPL News: Para iniciarmos, pergunto: quais serão os principais alinhamentos da sua gestão à frente do LACNIC?

Ernesto Majó: O compromisso central é garantir a continuidade da organização e a excelência dos serviços. Nosso foco é atender bem à comunidade de operadores e associados, com atenção constante a oportunidades de melhorar e ampliar os serviços.

DPL News: E o que podemos esperar da Agenda 2026-2029?

Ernesto Majó: Além da continuidade institucional, temos desafios relacionados ao debate sobre um novo marco de princípios que os Registros Regionais, como o LACNIC, devem seguir. Estamos atentos à definição desse marco, que pode levar à necessidade de ajustes institucionais.

DPL News: Esta edição do LACNIC está sendo realizada junto com o AGC 2025. Qual é o significado disso para a organização?

Ernesto Majó: Foi uma coincidência oportuna. É muito importante para nós porque também nos expõe como organização e nos vincula com uma comunidade muito forte como é a brasileira que é gigante e relevante. Estar aqui, participar da abertura da Abrint e interagir com os atores locais fortalece nossa conexão institucional e nos permite entender melhor as necessidades dessa comunidade. Já estivemos no Brasil em outras ocasiões, mas desta vez é mais próximo.

DPL News: E justamente agora o Brasil discute mudanças na composição do CGI.br. podendo ter que ser submetido ao regulador de telecomunicações. Como o LACNIC vê isso?

Ernesto Majó: Com muita preocupação. O Comitê Gestor da Internet no Brasil é uma referência internacional, não só regional, mas global. É fonte de inspiração para governos e para o setor privado em outros países. Além disso, há uma ligação histórica e estrutural entre o LACNIC e o CGI.br. O próprio registro .br foi um dos membros fundadores do LACNIC. Trabalhamos juntos desde o início na distribuição de endereços IP e em questões técnicas.

Alterar a composição e o modelo do Comitê Gestor, sem um motivo claro e legítimo, coloca em risco um modelo multissetorial que funciona. Não entendemos a motivação por trás dessas mudanças. E, francamente, é inquietante ver um modelo bem-sucedido ser desmontado.

DPL News: O risco, nesse caso, seria uma centralização como têm sinalizado o próprio Comitê?

Ernesto Majó: Exatamente. A centralização contraria os princípios da governança da internet. A confusão entre internet e telecomunicações agrava o problema. São áreas diferentes e precisam de tratamentos regulatórios distintos. Convergência tecnológica existe, sim, mas não justifica uma regulação única ou a concentração de poder.

DPL News: E falando sobre internet propriamente, como está o avanço do IPv6 na América Latina?

Ernesto Majó: O cenário é positivo. O Brasil está entre os países com maior índice de adoção, com cerca de 50%. Isso significa que metade do tráfego já usa IPv6. Além disso, 90% dos nossos associados têm recursos IPv6 e 70% estão com rotas ativas na internet. Mas ainda há desafios, principalmente em empresas que ainda dispõem de endereços IPv4 e, por isso, não sentem tanta pressão para migrar.

DPL News: Para finalizar, qual é o papel do LACNIC em momentos como este, quando a governança da Internet está sendo debatida?

Ernesto Majó: Nosso papel é apoiar os modelos bem-sucedidos, promover os princípios que garantem uma internet aberta, segura e descentralizada, e alertar quando estruturas como o CGI.br, que são referência, estão sob ameaça. Também atuamos tecnicamente, mas não nos omitimos quando os valores fundamentais da internet estão em jogo.