Lula defende governança global da IA e alerta sobre concentração tecnológica 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (19), em Nova Délhi, que a governança da inteligência artificial será decisiva para o equilíbrio de poder no mundo digital e para o desenvolvimento econômico dos países. Durante discurso na Sessão Plenária da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, o presidente destacou que o avanço acelerado da tecnologia ocorre em um contexto de fragilidade do multilateralismo e pode ampliar desigualdades globais. 

“A Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente. É nesse contexto que a governança global da inteligência artificial assume um papel estratégico”, disse. Segundo Lula, “sem ação coletiva, a inteligência artificial aprofundará desigualdades históricas” e deve ser orientada para fortalecer “a democracia, a coesão social e a soberania dos países”.

O presidente também chamou atenção para o impacto estrutural da tecnologia sobre a economia, a política e a organização social. Ele afirmou que os algoritmos e sistemas de inteligência artificial não são apenas ferramentas técnicas, mas parte de uma disputa de poder. “Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital. São parte de uma complexa estrutura de poder”, afirmou.

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Ceremonia de Apertura de la Cumbre sobre el Impacto de la Inteligencia Artificial (IA)/ Cerimônia de Abertura da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial (IA). Foto: Ricardo Stuckert / PR

Lula destacou que a tecnologia pode trazer ganhos relevantes em áreas como produtividade industrial, serviços públicos, medicina, segurança alimentar e energética, mas alertou que também representa riscos significativos, incluindo desinformação, manipulação eleitoral e precarização do trabalho. 

“Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas. Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia”, disse.

Outro ponto central do discurso foi a concentração de infraestrutura, capacidade computacional e dados nas mãos de poucas empresas globais. Lula defendeu a regulamentação das grandes plataformas tecnológicas e afirmou que o atual modelo econômico digital favorece a apropriação desigual de valor. 

“Capacidades computacionais, infraestrutura e capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas. Os dados gerados por nossos cidadãos, empresas e organismos públicos estão sendo apropriados por poucos conglomerados, sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda em nossos territórios”, afirmou.

Segundo o presidente, quando poucas empresas controlam algoritmos e infraestrutura digital, “não estamos falando de inovação, mas de dominação”, e a regulamentação das chamadas big techs é essencial para proteger direitos digitais, a integridade da informação e as economias nacionais.

Lula também destacou iniciativas brasileiras voltadas à soberania tecnológica e ao desenvolvimento econômico por meio da inteligência artificial, incluindo o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial lançado em 2024 e políticas para atrair investimentos em centros de dados. 

Ele afirmou que essas medidas buscam melhorar serviços públicos, estimular a geração de emprego e renda e posicionar o país na economia digital global. 

O presidente lembrou ainda que 2,6 bilhões de pessoas permanecem desconectadas, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), e defendeu que o desenvolvimento da inteligência artificial deve priorizar a inclusão. 

“Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente. O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo”, afirmou.