Crescimento do tráfego desafia sustentabilidade de investimento em rede na América Latina, afirma Asiet

Brasília. Um levantamento da Asiet (Associação Interamericana de Empresas de Telecomunicações) mostrou que na América Latina será necessário um investimento de US$ 17 bilhões para fechar as brechas digitais e um total de US$49 bilhões até 2030 para fazer frente às necessidades frente ao crescimento acelerado do tráfego de rede, impulsionado pelos grandes provedores de serviços OTT.

“É importante entender e estabelecer que o mercado de conectividade funciona como um mercado de dois lados, onde os provedores de rede dão serviço tanto aos usuários finais para ter conectividade, como às grandes plataformas para que ofereçam seus serviços”, frisou Pablo García de Castro, diretor regional da Asiet, durante sua apresentação no Painel Telebrasil 2025.

Para o especialista, este ponto é fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas bem estruturadas e que corrijam assimetrias históricas que depositam maior carga regulatória às operadoras que vão desde a fiscalização, passando por qualidade e atendimento ao usuário.

O relatório evidenciou ainda um desequilíbrio na rentabilidade dos players, sendo que o mercado não regulado (plataformas) tem crescido vertiginosamente enquanto os regulados sofrem queda em sua capacidade de recuperar receita e retorno sobre investimentos. 

“Por isso a pergunta que devemos fazer é: quais mudanças são necessárias para que haja um equilíbrio no ecossistema digital sobre a capacidade de investimento de seus diferentes agentes?”, provocou García de Castro.

Algumas sugestões propostas com base em exemplos dos EUA e União Europeia (UE) já foram postas à mesa no Brasil em tomadas de subsídios, propondo menor carga regulatória às operadoras, por exemplo. A questão, contudo, é delicada em um contexto que a pecha de “taxa de rede” pegou no Congresso de forma a resultar em alguns projetos de lei que visam barrar qualquer obrigatoriedade de investimento por parte das big techs.

Ainda que as operadoras insistam na igualdade do ecossistema, a Anatel tem abrandado o discurso e uma resposta definitiva ainda é esperada no Regulamento de Usuários de Rede.

Na mesma mesa que García de Castro, José Borges, superintendente de competição da agência, afirmou que não se nota essa explosão de tráfego e que o setor de telecomunicações no Brasil está em um momento de maturidade de como encontrar outras formas de rentabilizar as redes com outras fontes de receita.

“A maioria das empresas, principalmente as grandes e médias, estão partindo para a venda de Serviço de Valor Agregado (SVA), e o percentual significativo de receitas já estão vindo daí”, afirmou. “Não estamos vendo esses gargalos em forma de conectividade, é necessário novos arranjos entre os agentes”, pontuou.

A visão foi reforçada por Renato Paschoareli, diretor sênior da Alvarez & Marsal, que destacou a importância de uma regulação mais adaptável à evolução tecnológica e da previsibilidade para atrair capital.

Segundo ele, uma regulação excessivamente ex-ante postergou debates que poderiam ter sido simplificados. “A rentabilidade é um pilar necessário para tudo. O capital só entra se houver previsibilidade, mas se ela não existir, entra mais caro”, alertou. Para o executivo, apenas com previsibilidade, equilíbrio entre regras ex-ante e ex-post, e maior interconexão entre setores será possível garantir investimentos sustentáveis em infraestrutura.