BRICS quer rede própria de cabos submarinos para conectar países do Sul Global

A proposta brasileira para a criação de uma rede internacional de cabos submarinos de alta capacidade entre os países do BRICS foi oficialmente acolhida na 13ª Reunião Ministerial de Ciência, Tecnologia e Inovação do bloco, realizada em Brasília nesta quarta-feira (25). O grupo acordou a realização, ainda em 2025, de um estudo técnico e econômico de viabilidade para a construção do sistema, que teria usos tanto públicos quanto privados.

De acordo com a declaração final, a rede seria voltada à “pesquisa, educação e inovação“, mas também se propõe a fomentar a “produção de riqueza para as sociedades” dos países envolvidos, o que sugere um modelo híbrido, com rotas de tráfego de dados dedicadas à ciência e outras abertas à exploração comercial.

O documento destaca ainda a ambição de uma conectividade soberana entre países do Sul: o sistema buscaria estabelecer uma “conexão direta entre os países do Sul Global”, com atenção à “segurança, proteção e sustentabilidade dessas infraestruturas críticas”.

A proposta é estratégica em vários níveis. Tecnicamente, ela representa a intenção dos BRICS de disputar espaço no backbone global de dados, hoje dominado por rotas e infraestruturas controladas majoritariamente por empresas norte-americanas e europeias.

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Politicamente, insere-se em uma agenda de reindustrialização e soberania digital, especialmente para países que veem na infraestrutura digital um eixo central de autonomia tecnológica.

Embora o estudo ainda vá definir rotas, arquitetura e custos, a expectativa é de que o projeto envolva tecnologias ópticas de última geração e explore ancoragens em pontos como a costa atlântica da África e o sul da Ásia, além da América do Sul. 

A iniciativa se insere no momento em que o BRICS, originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, passou por recente expansão. Os 10 países que hoje compõem integralmente o grupo são: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia.

A inclusão da temática de infraestrutura digital física por meio de cabos submarinos representa um avanço estratégico do BRICS, estreitando a cooperação além da ciência aplicada e da diplomacia. A definição do escopo e do impacto desse projeto dependerá dos resultados do estudo agora autorizado.

Além do tema dos cabos, o encontro aprovou a nova fase do Plano de Ação em Inovação (2025–2030) e discutiu cooperação em áreas como inteligência artificial, computação quântica, recursos oceânicos e biotecnologia.