Brasil e data centers dão “match”, mas não se comprometem

País tem todos os atributos desejados: mercado, energia e conectividade, mas não transforma isso em posição global.

O regime especial para data centers (Redata) proposto no PL 278/2026, surge no Brasil como uma resposta tardia e ainda incompleta para uma disputa que não é só econômica como geopolítica. 

A proposta, que sucedeu da medida provisória editada em 2025 e que perdeu vigência em fevereiro deste ano, segue em tramitação na Câmara dos Deputados em regime de urgência desde então, mas sem avanço concreto até o presente momento. Enquanto isso, o mercado continua se movendo.

Segundo o próprio texto do PL, cerca de 60% das cargas digitais nacionais estão fora do país – o que implica não apenas déficit econômico, mas em vulnerabilidade estratégica e, por óbvio, dependência de infraestrutura externa. 

A justificativa do projeto evidencia ainda que o Brasil ocupa apenas a 10ª posição no mercado mundial de data centers, com cerca de 2% de participação global, atrás de países como Japão e Holanda, um nível de participação ínfimo que ainda não reflete o tamanho do seu mercado nem as condições que o país reúne. 

Esse descompasso entre política pública e dinâmica de investimento talvez seja hoje o principal risco para o posicionamento do Brasil. É nesse ponto que o Redata se insere como instrumento de política industrial voltado à internalização dessa capacidade. 

Ao reduzir o custo de implantação suspendendo tributos sobre equipamentos e infraestrutura e exigir contrapartidas como uso de energia renovável, investimento em P&D e oferta mínima de capacidade ao mercado doméstico, o projeto tenta equilibrar atração de capital estrangeiro com algum nível de captura de valor local. 

Mas esse movimento ocorre em um mercado regional que cresce rápido, com capital já em deslocamento e competição crescente entre países para atrair esses investimentos onde custo não é o único fator decisivo.

Relatório recente da Research and Markets indica que o setor de colocation na América Latina cresce a taxas superiores a 20% ao ano, com previsão de atingir US$ 3,7 bilhões já em 2026 e quase dobrar até o fim da década.

Esse crescimento é puxado principalmente por Brasil e México, que concentram a maior parte da demanda e dos investimentos de hyperscalers como AWS, Google e Microsoft. Ao mesmo tempo, outros mercados como Chile e Colômbia começam a se posicionar como alternativas viáveis.

Nesse cenário, o Brasil parte de uma posição privilegiada: tem o maior mercado consumidor da região, infraestrutura de conectividade consolidada e uma matriz energética com forte participação de fontes renováveis, um ativo cada vez mais relevante. Energia, afinal, também é um fator decisivo de localização da computação em larga escala.

O problema é que essa vantagem vem acompanhada de um gargalo estrutural que o Redata não resolve.

A principal restrição ao avanço de data centers na América Latina hoje não é a falta de demanda nem de capital, mas a infraestrutura energética. No caso brasileiro, isso se traduz em prazos longos de conexão à rede, limitações na expansão da transmissão e dificuldade de acesso a energia firme em regiões como São Paulo, onde se concentra a maior parte dos projetos.

Operadores já respondem a isso com contratos diretos de energia renovável (PPAs), investimento em geração própria e soluções de armazenamento.

O Redata reconhece parcialmente esse problema ao exigir que os empreendimentos sejam abastecidos por fontes limpas, mas desloca a solução justamente para o nível do projeto individual, sem enfrentar o planejamento energético de forma integrada. Isso cria um paradoxo: estimula a instalação de infraestrutura de uso intensivo de energia sem garantir as condições estruturais para seu funcionamento. 

E cá entre nós, o Brasil vem se tornando um especialista em criar soluções com entraves. O mesmo Redata também se debate com uma outra resolução que elevou as alíquotas do Imposto de Importação sobre servidores, equipamentos de rede, semicondutores e circuitos integrados, com alíquotas entre 7,2% e 25%. Ou seja: com uma mão dá a suspensão de tributos para instalação de data centers, mas os tira com a outra em maiores custos.

Problemas à parte, o que emerge desse conjunto de fatores é um cenário em que o Brasil, pela primeira vez, reúne condições reais de se posicionar como hub digital relevante não apenas na América Latina, mas no cenário global. Tem mercado, tem conectividade, tem energia potencialmente competitiva e tem pressão regulatória.

O Redata vai na direção correta ao tentar transformar essas condições em política pública, mas seu desenho e sua tramitação lenta acabam por travar agendas que hoje são inseparáveis: energia, indústria e soberania digital. A disputa, no fim, não é apenas por atrair data centers, mas por definir que papel o país vai ocupar na economia digital.