Geopolítica de plataformas virou variável da política comercial de Trump contra o Brasil

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O tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, anunciado no fim de julho e que entrou em vigor em 6 de agosto, não é simplesmente sobre tarifas. É uma nova guerra fria sob a justificativa de um “déficit comercial” que não existe, misturando retórica econômica com chantagem política e digital, mirando tanto o setor tecnológico quanto o ambiente regulatório brasileiro em torno das redes sociais. Trata-se do relançamento do antigo jogo imperialista estadunidense; uma tentativa de Washington de reafirmar sua influência sobre a América Latina – e o restante do mundo.

Trump usou a pauta das redes para vestir o tarifaço com roupa ideológica, mas deu meia-volta no que realmente dói no bolso do consumidor americano. Apesar de seu decreto elevar as tarifas a 40% adicionais sobre os 10% já anunciados, na maioria dos produtos exportados pelo Brasil para os EUA, um anexo isenta 694 subitens, incluindo 33 ligados à cadeia de telecom, além de smartphones e eletrônicos.

O recuo passou a integrar a narrativa “TACO” (“Trump Always Chickens Out”), mostrando que o presidente fala grosso no discurso, mas recua quando o impacto real recairia sobre consumidores e empresas americanas. Para além do desdém jocoso, isso evidencia uma lógica estratégica: usar retórica ideológica pressiona a soberania alheia, mas sem interromper cadeias produtivas críticas dos EUA.

O Brasil não é exportador relevante de smartphones ou equipamentos de telecom para os EUA. Na prática, a balança comercial de bens tecnológicos é superavitária para os EUA, que vendem mais para o Brasil do que o contrário, incluindo semicondutores, componentes de TI e eletrônicos de consumo. Ou seja, o tarifaço não impacta diretamente o setor TIC/telecom nacional, mas funciona como instrumento de pressão sobre regulação digital, plataformas e decisões estratégicas de investimento.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e a Amcham, os EUA mantêm superávit comercial recorrente com o Brasil desde 2009. Entre 2023 e 2024, o saldo foi de cerca de US$ 15 bilhões, e no 1º trimestre de 2025, aproximadamente US$ 3,2 bilhões. 

O comércio bilateral tem perfil de alta industrialização: estudos da Amcham e Comex indicam que cerca de 79% das exportações brasileiras aos EUA são produtos manufaturados de maior valor agregado (aviões, máquinas, químicos e eletrônicos), diferente da relação de troca de commodities com a China.

Mas voltando ao impacto real do tarifaço nos setores TIC, telecom e chips, como já dito, é limitado. Como a maior parte dos produtos de alta tecnologia foi isentada das tarifas adicionais, as operadoras brasileiras (Vivo, TIM, Claro) não enxergam ainda como podem sofrer algum tipo de impacto, ainda que a Vivo tenha sido transparente em indicar que fará repasses ao consumidor diante de qualquer aumento.

A Qualcomm admite que as tarifas aumentam a incerteza, mas frisa que é fabless, com produção terceirizada para Samsung, TSMC e GlobalFoundries, que hoje já operam linhas nos Estados Unidos. A consequência é que, mesmo em meio à retórica dura, a cadeia de suprimentos de tecnologia segue relativamente intacta.

Contudo, para mitigar riscos macroeconômicos, o governo brasileiro lançou a MP Brasil Soberano, com R$ 30 bilhões em crédito do Fundo Garantidor de Exportações (FGE), alívios tributários e compras públicas para setores atingidos como agroindústria, manufaturas, pequenas e médias exportadoras. Para o ecossistema digital, isso significa indiretamente estabilidade de curto prazo: demanda doméstica sustentada e câmbio menos volátil do que seria num “olho por olho” tarifário.

Ainda assim, a dependência tecnológica do Brasil em componentes dos EUA, combinada com mais de 3,6 mil empresas americanas operando no país, reforça o cenário em que Washington pode vincular comércio, regulação digital e política externa a seus objetivos estratégicos. A Lei Magnitsky, que direcionou sanções ao ministro da Suprema Corte, Alexandre de Moraes, só evidenciou o efeito da chantagem sobre Brasília.

Uma ameaça de interferência real

Nos bastidores, o Planalto enxerga algo ainda mais grave: o tarifaço e as sanções fariam parte de uma estratégia dos EUA de “mudança de regime” no Brasil. Em reportagem veiculada pela Folha de São Paulo, Trump teria como alvo não apenas pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, marcado para setembro, mas também influenciar diretamente o processo eleitoral de 2026.

Segundo apuração do noticiário, integrantes do governo acreditam que a Casa Branca deseja garantir que haja um candidato ideologicamente afinado com Trump na cédula. Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, que já afirmou ter articulado a pressão de Trump contra o Brasil, disse ainda que, se seu pai não concorrer, os EUA não reconhecerão a eleição brasileira. 

Jair Bolsonaro foi declarado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em decisão tomada por maioria de votos (5 a 2) em 30 de junho de 2023, por abuso de poder e problemas com a prestação de contas relativas à campanha de 2018. Apesar da inelegibilidade, Bolsonaro afirmou que se considera um candidato ao pleito de 2026.

O tabuleiro, por fim, é ainda mais amplo do que as dimensões continentais do Brasil: Trump criticou a prisão de Álvaro Uribe (Colômbia), elogiou ações contra Cristina Kirchner (Argentina) e pressiona vizinhos a alinhar posições. Em Brasília, a leitura é de que os EUA querem recolocar a América Latina em seu “quintal”. Para se blindar, o Brasil busca costuras regionais, como aproximação com Daniel Noboa (Equador), e diálogo global com Macron, Merz, von der Leyen e Ramaphosa.